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Versão em HQ de 'O Ateneu' revê drama de violento rito de passagem

Livro de Raul Pompeia foi adaptado por Marcello Quintanilha para a série 'Clássicos Brasileiros em HQ'

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

31 Julho 2012 | 07h00

Cerca de 110 anos antes de Hogwarts (o colégio interno dos magos mirins de JK Rowling), um outro colégio interno da literatura colocou à prova o talento, a sagacidade e, principalmente, o instinto de sobrevivência de seus alunos: O Ateneu, de Raul Pompeia.

Romance proustiano de naturalismo crítico, O Ateneu é uma obra-prima da literatura nacional. Segundo Camil Capaz, que foi biógrafo de Pompeia (1863- 1895), trata-se de um "romance da reclusão que as famílias ricas do fim do Império impunham a seus filhos, no intuito de temperá-los para os desafios da vida adulta". Ao assumir a tarefa de desenhar O Ateneu para a série Clássicos Brasileiros em HQ, da Editora Ática, o quadrinista Marcello Quintanilha produziu outra obra-prima.

O violento rito de passagem do menino Sérgio pelo Ateneu (uma espécie de potentado do tirânico diretor Aristarco Argolo de Ramos, de alma inquisitorial), emparelha-se com alguns dos melhores relatos dessa fase da vida masculina - incluindo aí o filmaço Conta Comigo (Stand by Me), de Rob Reiner. Criado em berço esplêndido, com sobras de afeto de pai e mãe, Sérgio subitamente é arrancado de seu conforto e enviado para o lugar em que deverá tornar-se um "homem de fibra", numa espécie de viveiro de pequenos fascismos.

"O mestre é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos", diz o discurso. Antimilitarista, republicano, abolicionista, libertário: isso é o que se esconde sob as páginas, o espírito do livro de Raul Pompeia (que foi execrado em sua época, e combatido por seu temperamento rebelde, acabando por suicidar-se na noite do Natal de 1895, aos 32 anos de idade).

Quintanilha examina com ternura e atenção cada pequeno personagem de O Ateneu, dando especialmente às mulheres um papel de coadjuvante de destaque - sua atuação é como um arbítrio superior, distanciado. Os quadrinhos são miúdos, talvez demais para a variedade de detalhes. Os meninos do Ateneu dão vida a um Rio de Janeiro emergente, com seus passeios ao Jardim Botânico, ao Morro Dois Irmãos, ao Corcovado.

Quintanilha conta, nas notas minuciosas da edição (que incluem os estudos da adaptação), que pretendeu, com seu trabalho em nanquim sobre superfície de papel porosa, acentuar a atmosfera difusa e onírica do relato de Pompeia e "tornar toda a massa de alunos do Ateneu e o próprio colégio em um único organismo, vivo, assustador, constituído quase da mesma matéria, plasmando, assim, aquilo que talvez seja o principal pilar do romance, o de uma verdade filtrada, assimilada, estratificada a partir dos olhos de Sérgio".

O romance se passa em um momento crucial da história brasileira. O ano de sua publicação é o mesmo da abolição da escravatura, 1888. A princesa Isabel é personagem, no início da história, e também protagoniza uma pequena crise diplomática: um dos garotos, num ímpeto republicano, se recusa a beijar sua mão. Essa bipolaridade política se expressa em diversos momentos da narrativa. O herói, Sérgio, vê-se compelido a renegar a religião, que lhe é mostrada como se o Mal fosse fêmea.

Nascido em Niterói em 1971, o desenhista Marcello Quintanilha vive em Barcelona. Estreou nos quadrinhos em 1988, com histórias de terror e artes marciais publicadas pela Bloch. Lançou em 1999 o primeiro álbum, Fealdade de Fabiano Gorilla, ainda com o pseudônimo Marcello Gaú. Na Espanha, onde trabalha na série de HQ Sept Balles pour Oxford, da editora belga Editions du Lombard, colabora com El País e La Vanguardia. Ocupou a página de quadrinhos do Caderno 2 do Estado durante um período com um trabalho autoral. Em 2009, ganhou o Prêmio HQ Mix pelo álbum Sábado dos Meus Amores.

 

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