Leonardo Soares/Estadão
Leonardo Soares/Estadão

Veronica Stigger estreia no romance com o premiado 'Opisanie Swiata'

Escritora levou o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional como melhor obra do ano

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2013 | 06h00

Doente em fase terminal, rapaz envia uma carta para o pai polonês, que pouco o conhece. Pede para visitá-lo, antes de morrer. Tocado pelo desejo do filho, o homem decide enfrentar uma longa viagem, que implica trem e navio, até a Amazônia, onde mora o garoto. Trata-se de um grande desafio, pois a cena se passa nos anos 1930, época em que o norte do Brasil era quase totalmente desconhecido. Assim começa a aventura de Opisanie Swiata (Cosac Naify), primeiro romance de Veronica Stigger, que se consagrou com textos curtos e bem humorados.

Trata-se de uma bem sucedida estreia – Opisanie Swiata ganhou o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional como o melhor romance do ano. Com isso, Veronica faturou R$ 12.500. Um reconhecimento para um trabalho delicado e ousado. A começar pelo título que, em polonês, significa “descrição do mundo” e que também é o título naquela língua da tradução de Il Milione, o livro de viagens de Marco Polo – e é justamente esse o tom da obra da escritora.

Ao relatar as aventuras de Opalka em busca do encontro com o filho Natanael, Veronica utiliza o mesmo recurso dos modernistas que, nos anos 1920, deixaram diários sobre suas aventuras em terras ainda inabitadas. Assim, o livro se compõe de registros, que vão do relato em terceira pessoa a descrições em diários e cartas. Sobre o trabalho de criação, Veronica respondeu, por e-mail, as seguintes questões.

Como foi o trabalho de colocar o leitor no papel do estrangeiro, deixando-o enfrentar os mesmos desafios e enigmas?

No livro, com exceção de dois personagens, todos são estrangeiros, no sentido de que estão deslocados de seus lugares de origem. Estão em trânsito. Creio que estar em trânsito, estar em deslocamento, seja a condição definidora do homem moderno. Ao dar ao livro um título em polonês (língua do protagonista da história), queria justamente colocar o leitor, nem que fosse por um breve instante, nessa posição de deslocado, ou, antes, revelar a posição de deslocado que, na realidade, é a dele desde sempre, mesmo que ele não perceba. Talvez porque, ao escolher sair de minha cidade, para a qual já é impossível voltar (a Porto Alegre que deixei para trás em 2001 não existe mais), tenha percebido que somos todos estrangeiros. Se existe algo como uma condição humana, ela não se define pelo pertencimento, mas, ao contrário, pelo estranhamento.

Opisanie Swiata parece diferir de sua obra precedente, principalmente pela narrativa mais austera. Concorda?

Não me parece haver uma diferença tão grande em relação ao que fiz anteriormente. Pelo contrário, vejo muito não só de continuação, como também de resgatar. Além disso tudo, parece-me que segue também presente em Opisanie Swiata uma característica que vem se acentuando nos meus últimos trabalhos, Os Anões, Massamorda e, principalmente, Delírio de Damasco, que é o trabalho a partir de citações, a construção do texto, em larga medida, a partir da apropriação e reelaboração de vozes alheias. Acredito, portanto, que se encontra no Opisanie Swiata um pouquinho de cada um dos livros anteriores. O que me parece ser condizente com a forma do romance, que, para além das ilusões realistas ainda predominantes em tantos autores, tem sempre seu tanto de paródia, montagem, coleção.

A crise europeia e a consequente apropriação do personagem pelo Brasil parecem muito atuais – o que pensa disso?

Embora a narrativa se passe no passado, creio que se possam estabelecer pontos de contato com o tempo presente. O livro se situa no final da década de 1930, quando a Europa se preparava para entrar novamente em guerra. O protagonista vem da Polônia, que é o primeiro país a ser invadido por Hitler. O momento era, portanto, de extrema conturbação. “A Polônia acabou”, diz Jean-Pierre, um dos personagens da história, e logo emenda: “Daqui a pouco, toda a Europa não vai existir mais, se é que ainda existe”. Assim como não é casual que o protagonista venha da Polônia para a Amazônia, um lugar, já àquela época, não menos arrasado, não menos em vias de se extinguir – uma destruição, aliás, que não deixa de apontar para atual transformação da região naquilo que ela não é ou que, se quisermos sobreviver, não deveria ser: em plantação de soja, em campo para o gado, em deserto pontuado por megausinas hidrelétricas. Tudo em nome do “progresso”...

A viagem da Polônia à Amazônia é descrita por meio de uma interessante intertextualidade, especialmente pela lembrança de autores brasileiros daquela época. Até que ponto as referências surgiram com facilidade?

De certa maneira, o livro se originou das pesquisas que eu vinha desenvolvendo por volta de 2006. Estudava, ao mesmo tempo, Roman Opalka, artista polonês, de quem roubei o nome para meu protagonista, e a série Amazônia, da escultora brasileira Maria Martins. Estava, portanto, oscilando entre a Europa e a selva, buscando identificar que imagem de Amazônia vinha sendo construída desde, pelo menos, Euclides da Cunha, passando pelos modernistas, como Raul Bopp e Mário de Andrade, até chegar em Maria Martins. Como convivia muito com essas figuras, foi quase natural fazê-las migrar para o livro. Mas elas aparecem na história já transformadas, não correspondendo perfeitamente aos personagens históricos. E é importante frisar que o livro comporta um primeiro nível de leitura que não depende da identificação dessas referências. Claro, o leitor que estiver atento para a rede de relações e sugestões que busquei criar por meio dessas apropriações de nomes e de textos perceberá que o livro é também, a seu modo, uma espécie de história poética do modernismo brasileiro.

A narrativa que lembra um road movie e o projeto gráfico vibrante levam inevitavelmente ao cinema. Até que ponto a linguagem cinematográfica foi decisiva na narrativa?

O livro tem, de fato, um ar de cinema. Creio que a descrição minuciosa dos gestos dos personagens – uma obsessão que me persegue há algum tempo – torna a ação mais visível, faz com que o leitor veja, através das palavras, o que está acontecendo. E isso pode lhe dar a impressão de estar diante de um filme. Para além disso, confesso que imaginei a abertura do livro como a de um filme. Assim, depois das imagens da Polônia, as cartas são os primeiros textos que aparecem, como uma espécie de cena antes dos “créditos” (o título do livro e minha assinatura em duas páginas). Só depois disso é que vêm as epígrafes, a dedicatória, os capítulos... De resto, como se poderá verificar nos Deveres ao fim do volume, listo ali diversos filmes (ao lado de livros, conversas etc.) que me serviram de inspiração. O que é natural, acho: trata-se de um romance, e o que é o filme de longa-metragem senão a forma audiovisual do romance?

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