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Ignácio de Loyola Brandão
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Verifique se o elevador está parado neste andar

Em São João Del Rey, por dias e dias, se eu fosse ao O Bistrô, no Largo do Carmo, comeria o escondidinho do Ignácio, enquanto o Esquina da Lapa oferecia o Quiabo do Nerê.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2016 | 02h00

SÃO JOÃO DEL REY / MG  - Preciso registrar que, em um período marcado pelo cancelamento de dezenas de encontros formadores de leitor, duas festas literárias fecharam a temporada de 2016, a Flin, Festa Literária de Natal, Rio Grande do Norte, e o Felit, Festival Literário de São João Del Rey e Tiradentes, Minas Gerais.

Os mineiros encerraram o ano em que cheguei aos 80 com um festival de literatura e culinária dedicado à minha obra, porque, disseram eles, uma coisa complementa a outra com aromas, sabores e saberes. A cidade aderiu. Designers e artistas plásticos, a partir de textos como O Menino Que Vendia Palavras ou Cadeiras Proibidas, montaram banheiros temáticos em oito restaurantes. Por três dias, vivemos esse clima. O projeto original previa uma semana inteira, mas a crise, o golpe, as hesitações do presidente, reduziram tudo. Para mim, valeu. Fiquei feliz ao ver como criações minhas inspiraram a produção de Os Meninos Que Queriam Escrever Um Livro, escrito por 28 alunos do Ensino Fundamental e do primeiro ano de Ensino Médio na Oficina de Formação de Jovens Autores do Felit, comandada por Lucio Teixeira de Carvalho. Ali não se procura somente formar leitores, mas também autores. 

Saltei desse lançamento para outro, no Teatro Municipal. O livro é O Homem Que Odiava..., escrito por 42 alunos do Colégio Revisão, a partir de meus contos em O Homem Que Odiava a Segunda-Feira. No Teatro Municipal lotado pela manhã, alternamos falas com apresentação teatral, para uma plateia infantojuvenil excitada e animadíssima. Vendo aquela gente que tinha criado a partir do que coloquei no mundo, fiquei pensando: e se a minha geração na infância e juventude tivesse tido um festival desses em nossas cidades? Tivesse tido um bando de professores sonhadores, idealistas, deliciosamente quixotescos lutando para montar uma festa dessas? Quem sabe hoje um autor brasileiro já tivesse talvez um Nobel nas mãos. Não estou reclamando do ensino que tive. Talvez tenha sido o último eficiente antes de tudo apodrecer.

Na cidade mineira, por dias e dias, se eu fosse ao O Bistrô, no Largo do Carmo, comeria o escondidinho do Ignácio, enquanto o Esquina da Lapa oferecia o Quiabo do Nerê. Mas se preferisse a Braseiro Espeteria, degustaria a Matula do Ignácio. Quando entrei na Caldos Cumbuca de Barro, o Bolinha Furado era homenagem ao meu conto O Homem do Furo na Mão, que deu origem ao romance Não Verás País Nenhum. Já o Barteliê colocou no alto do cardápio o Cadê o Ignácio que estava aqui? Era um recheado com ovo de codorna. O Dedo de Moça, da Ana, me atraiu com o Aipim Perneta, escondidinho de mandioca e carne-seca. Num final de noite, comi na Fino Sabor a Pizza Loyola, com frango e ora-pro-nóbis. Por fim, o Rex me saudou com Vaca que Atolou com ora-pro-nóbis de lamber os beiços.

Circulando para lá e para cá nesta cidade setecentista, ficava matutando: aqui nasceu e cresceu Otto Lara Resende. Em qual dessas casas? Frequentava alguma dessas igrejas imponentes? Este ar e esta luz o levaram a ser o genial frasista que foi?

Felit. De pé há dez anos. Crise, sim. Mas fizeram. Modesta? Sim, mas extremamente comovente. Não foi uma festa para um escritor só. Foi, vem sendo e será da literatura brasileira. Coisas assim nos dão a certeza de que há muita gente no caminho certo e, daqui para a frente, é lutar para continuar, porque os tempos para a cultura são nebulosos, incertos, pantanosos. O Felit é a afirmação de que há sonhadores caminhando na contramão de governos que têm feito tudo para afundar o Brasil. Houve até doações de dinheiro pela população. É parte da guerra civil cultural, das guerrilhas, das batalhas de resistência. Felits, Flips, Flipiris, Flivs, Fliportos, Flins e outros são barricadas, trincheiras, contra a mediocridade de parlamentos, senados e ministérios apodrecidos, enlameados, defuntos.

Deixei o Felit fortalecido. Quando tomei o avião de volta, imaginei: será que amanhã, alguns desses 70 jovens autores do Felit estarão no lugar de Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Raduan Nassar, Lygia Fagundes Telles, Antonio Torres, Luiz Ruffato, Fernando Bonassi, Ferréz, João Anzanello Carrascoza, Ivana Arruda, Eliane Brum, Daniel Galera, Marcelino Freire, João Almino e tantos outros?

O ano terminando, ainda fui à Flin, Festa Literária de Natal, Rio Grande do Norte. Com pessoas decididas, essas festas se mantêm pela dedicação, esforço, ideal, loucura boa. Aos leitores, um feliz Natal e ano novo na medida do possível. Lembrem-se: antes de entrar no elevador, verifiquem se o mesmo está parado neste andar. Ou cairão no vazio do universo.

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