Vergara expõe obras inéditas e recentes em SP

Desde 1989, Carlos Vergara vem reinventando a paisagem brasileira, tirando da terra e dos minérios que reencontra com freqüência no interior de Minas Gerais uma topografia ao mesmo tempo abstrata e concreta; uma espécie de decalque, de sudário, que não tem, no entanto, o compromisso de reproduzir os contornos do real. Mesmo assim, o artista gaúcho, radicado no Rio de Janeiro desde a infância, consegue renovar-se, dando à nova safra de trabalhos que expõe na Galeria Nara Roesler uma intensidade cromática e um jogo gráfico e compositivo mais ousado, que garante à mostra uma dramaticidade que contrasta com as obras mais plácidas e harmônicas que mostrou na Pinacoteca do Estado, por ocasião de uma exposição comemorativa de seus 35 anos de carreira.O próprio Vergara reconhece que trabalha com séries, que interrompe arbitrariamente quando começa a se repetir. O gosto pelo desafio fez com que ele se propusesse a realizar uma obra especial para este evento, realizada integralmente no espaço expositivo - segundo ele, absolutamente espetacular. "Fazer o trabalho aqui foi uma forma de criar uma vertigem, um sentimento de emergência para mim mesmo", diz ele. Quem espera, no entanto encontrar uma obra em processo pode esquecer. Não se trata nem de performance nem de instalação, coisas que diz já ter feito na década de 60.O que há na mostra é uma complexa monotipia, feita com os mesmos óxidos e minérios que Vergara costuma explorar, mas que foi toda pensada para o espaço que a abriga. "Queria subverter a idéia de showroom, de penduração de quadro. É quase um site specific", diz. Dentre os cerca de 20 trabalhos inéditos e recentes (com raras exceções), que podem ser vistos pelo público a partir de amanhã, destacam-se também aqueles feitos sobre poliéster, material que tem a aparência de papel, mas que garante uma maior vivacidade às cores e permite que o artista intervenha graficamente sobre as imagens.A preocupação de Vergara com as raízes brasileiras de sua arte não data de hoje. Mesmo fazendo questão de afirmar que, acima de tudo, seu maior interesse é a pintura, ele reconhece que o amplo uso que faz das cores e das formas que encontra na natureza ou nas tradições regionais (ele utiliza hoje a mesma paleta que o pintor barroco Mestre Athayde e diz que é uma sensação maravilhosa encontrar tudo o que precisa por aqui, com exceção do azul) expressa um interesse pela cor e pelo caráter da arte nacional. "Minha visão de Brasil parte de uma escala compatível com o País", conta Vergara, que se sente como uma espécie de artista-viajante. "Temos uma tradição, um naipe interessante de artistas preocupados em desenvolver uma estética que não seja burra", afirma.Um de seus próximos projetos, aliás, tem muito a ver com essa investigação das nossas raízes. Ele está desenvolvendo para a Companhia Vale do Rio Doce - em cujas minas colhe boa parte de seu material - uma série de crayons com as cores da nossa terra. Esses lápis - ou pequenas esculturas - serão confeccionados com material de refugo coletado pelo artista, numa paleta baixa, que vai do branco ao preto (carvão moído), passando pelos amarelos e vermelhos. "Não pretendo dar conta nem sistematizar essa questão, que está muito presente no trabalho de vários artistas mineiros. Sou apenas mais um dessa família."Carlos Vergara. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. Avenida Europa, 655, tel. 3063-2344. Até 30/7.

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