Veredictos sem dó sobre um mito dos musicais

Aos 80 anos, Stephen Sondheim reavalia sua obra e conta segredos de seu ofício em Finishing the Hat

Charles McNulty, Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Imponente e amarrotado, Stephen Sondheim desceu do piso superior de sua elegante casa no East Side e se submeteu à entrevista como quem vai fazer a necessária barba numa barbearia. Está acostumado a essas intrusões - o artista obrigado a falar sobre seu trabalho foi um dos temas de Sunday in the Park With George, mas neste ano as distrações chegaram a um novo extremo de perturbação. Sondheim completou 80 anos em 22 de março e vem soprando velas desde então. Houve um concerto de aniversário cheio de astros no Lincoln Center (programado para ser transmitido pela rede PBS em 24 de novembro). A Broadway prestou homenagem com uma revista musical, Sondheim on Sondheim, intercalada por videoclipes do mestre refletindo sobre arte e vida. E agora que lançou um novo livro, Finishing the Hat, ele está de novo em evidência.

Quando vai ter folga para compor o próximo Sweeney Todd? Sempre alerta para o paradoxo, Sondheim descreveu toda essa atenção pública como empolgante e embaraçosa. "Enquanto estou aqui conversando com você, parte da minha cabeça está dizendo: "Você devia estar no computador." Minha culpa judaica está crescendo." Sua vida foi consumida ultimamente por Finishing the Hat, extraordinário livro de comentários sobre a sua obra, de Saturday Night até Merrily We Roll Along.

São ensaios curtos e incisivos sobre um grupo de elite de letristas, todos mortos e protegidos no panteão. Sondheim vem trabalhando duro no segundo volume, que começará com Sunday in the Park With George, o musical que contém a canção autobiográfica sobre a criatividade compulsiva que proporcionou seu título. O subtítulo, Collected Lyrics (1954-1981) With Attendant Comments, Principles, Heresies, Grudges, Whines and Anecdotes, tem a precisão deliciosa que se espera de um homem saudado como o maior cancionista vivo do teatro americano.

Embora Sondheim tenha alegado que "a prosa não é uma linguagem natural" para ele, seus dotes verbais estão perfeitamente expostos. Ele oferece veredictos definitivos sobre lendas com Ira Gershwin ("Ele é com frequência arruinado por sua paixão pela rima, pela qual sacrifica tanto o relaxamento como a sintaxe") e Noel Coward ("A maioria de suas letras vem com dois sabores: frágil e sentimental").

O livro nos guia pela mente de Sondheim, convidando-nos a avaliar canções por meio de seus olhos exigentes. Por exemplo, ao analisar seu mentor Oscar Hammerstein II, ele discorda de suas redundâncias. Mas essas críticas são contextualizadas numa comparação esclarecedora entre Hammerstein e Eugene O"Neill que sugere que as "imaginações teatrais" grandiosas desses escritores são uma compensação pela linguagem que "tende a cair na pregação".

Segredos. Essa crítica poderia indicar um titã superando seus antepassados numa batalha por um lugar na posteridade. Mas Sondheim pôs em ação o lápis do editor sobre si mesmo, queixando-se de algumas linhas de Amor, Sublime, Amor. Um amigo dramaturgo britânico criticou a maneira como ele desconsiderou o sistema de classe que informava a sátira mordaz de Coward aos ricos, uma atitude que Sondheim contrasta desfavoravelmente com a de Cole Porter ("Ambos ridicularizam a alta roda, mas Porter o faz com afeto e Coward, com desdém"). Assim, ele passa segredos de seu ofício para a próxima geração.

"Pediram para fazer um livro sobre uma seleção de canções, e disse que só o faria se pudesse escrever sobre o ofício dos letristas. Para meu horror, eles concordaram. Não tenho problemas em falar em minhas deficiências ou as deficiências e virtudes alheias. Isso não me incomoda, porque confio no que faço e tenho opiniões. E dar opinião é vital nas artes."

Indagado sobre se tem havido uma queda no nível de habilidade da atual geração de letristas, ele se recusou em princípio a falar de "escritores vivos". Mas admitiu que o negócio da Broadway tornou desafiador para os inovadores de hoje serem produzidos ali: "A maioria dos chamados musicais sérios como Rent começou off-Broadway." "Ninguém montaria esses espetáculos diretamente na Broadway. É caro demais." Se ele se preocupa de que nossa disposição de habitar novos mundos ficcionais esteja sendo comprometida pela mania tecnológica da vida contemporânea? Ele balançou a cabeça e admitiu que não usa iPod nem se permite ficar pendurado em salas de bate-papo da internet.

Se isso o fizer parecer antiquado, que seja. "Sou um clichê", disse o inveterado esmagador de clichês. "Sou uma pessoa que está ficando velha." Sentado no sofá, ele passa a impressão de um monumento atemporal - relaxado e acomodado em sua forma final. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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