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Verdades e mentiras

O mais assistido âncora da TV americana e a presidente Dilma Rousseff tiveram um fim de semana miserável. Os dois estão na berlinda porque seus respectivos públicos duvidam do que eles dizem. A permanência de ambos no emprego é questionada.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 02h04

Brian Williams, o âncora-galã da NBC, inventou que esteve sob ataque de foguetes a bordo de um helicóptero no começo da guerra no Iraque, em 2003. Desmentido por soldados presentes naquela missão, pediu desculpas à sua audiência de dez milhões de pessoas, dizendo que havia misturado na memória "duas variantes" de eventos. Foi espinafrado na rede social, com o aparecimento de mais exemplos de autoengrandecimento que sugerem um padrão de ofuscação preocupante para quem vive de credibilidade.

De maneira geral, o público espera que os jornalistas não mintam e que os políticos mintam para se eleger. Mas os números da nova pesquisa do Instituto Datafolha são sombrios: 47% dos eleitores brasileiros consideram a presidente desonesta e 77% acreditam que ela sabia da roubalheira do Petrolão. Mesmo se dão desconto pelas bazófias de João Santana, que regurgitou como candidata, percebe-se que os eleitores de Dilma se sentem tungados.

A desmemória de Brian Williams enfrentou a memória implacável da eternidade das informações na internet. Noto a ironia: nunca foi tão fácil detectar uma lorota com ajuda do ecossistema digital. E nunca se mentiu tanto, seja em política e jornalismo, economia e entretenimento.

Uma falsificação mancha a reputação do filme Selma, que acaba de estrear no Brasil. O primeiro trabalho biográfico em cinema sobre Martin Luther King, a figura seminal do movimento negro por direitos civis, está indicado para o Oscar de melhor filme. Mas está também no centro de uma controvérsia sobre o papel do presidente Lyndon Johnson, antes da histórica marcha liderada por MLK em Selma, Alabama. Houve três marchas em Selma, protestos pacíficos fundamentais para a passagem do Ato de Direito ao Voto em 1965, que tornava ilegal a discriminação racial contra eleitores. No filme, Johnson diz, de maneira taxativa, que não quer tocar na questão de direitos eleitorais em 1965 e é representado como um antagonista da causa. Na vida real, o presidente queria esperar até o fim de março, como explica num telefonema a MLK. A outra inverdade que deixa as plateias indignadas é sobre o papel de Johnson na campanha de intimidação montada pelo radical e fora de controle diretor do FBI J. Edgar Hoover.

Os erros não comprometem o fato de que Selma é um belo e necessário filme. Mas, para muitos, será a única versão de um momento definitivo da história americana. Da mesma forma, milhões de espectadores de A Hora Mais Escura podem acreditar na mentira de que a tortura levou à captura de Osama bin Laden. A diretora de Selma, Ava DuVernay, disse, numa entrevista à rádio norte-americana, que não quer fatos e, sim, a verdade. A declaração me perturba e me parece prejudicar sua obra mais do que qualquer licença esperada de filmes biográficos.

De volta ao âncora e à presidente, o declínio de suas reputações tem mais em comum. O âncora noturno é uma espécie em extinção num mundo em que a informação é cada vez mais consumida em gadgets. Os telejornais norte-americanos apelam para trivialidades para segurar o que sobra de audiência e empacotam os âncoras como celebridades.

A presidente, pouco conhecida dos brasileiros antes da primeira eleição, exemplifica o empacotamento do político por marqueteiros. Coloque Dilma à deriva sem texto preparado e arrisque ver a lógica e a semântica caírem aos níveis do sistema Cantareira. Na nossa era da informação, os mediadores tradicionais foram destronados. Com a transferência de poder para a massa digital, a distância entre o rei vestido e o rei nu encurtou.

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