Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Verdades e ilusões em Verdi

Uma reflexão sobre o fazer artístico no Rigoletto dos 100 anos do Municipal

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2011 | 00h00

Expectativas não faltavam. O Rigoletto, de Verdi, que subiu ao palco do Teatro Municipal na noite de segunda não marcava apenas o aniversário de 100 anos da casa. Era também o retorno do diretor Felipe Hirsch à ópera depois do sucesso, em 2007, de sua produção de O Castelo do Barba Azul, de Bartók; e a primeira ópera do maestro Abel Rocha como diretor artístico do Municipal - e regente titular da orquestra profissional do teatro.

Hirsch entende a ópera no contexto de uma discussão sobre o fazer artístico. Rigoletto é o ator que, fora do palco, quer resguardar seu mundo, aquilo que de mais íntimo e precioso acredita possuir. Irônico e ácido em sua atuação na corte, o bufão de Verdi busca proteger sua filha Gilda da crueza e da falta de valores da qual ele próprio faz parte. O diretor, então, se pergunta, retomando um dos temas caros à sua trajetória: em um mundo distópico, como fazer arte - e, extrapolando a questão ao mundo real, como é possível acreditar em algo e lidar com as perdas que deixamos pelo caminho?

Para tanto, Hirsch trabalhou ao lado de uma equipe com a qual atua regularmente - os cenógrafos Felipe Tassara e Daniela Thomas (que também assina a direção de arte), a figurinista Verônica Julian e o iluminador Beto Bruel -, o que leva a um espetáculo bem acabado, no qual os diversos elementos dialogam em torno de uma concepção comum e, mais do que isso, se alimentam e reinventam a todo instante. De cara, a concepção visual abre mão da necessidade de retratar a Mântua do século 16 - e estabelece um universo em que tempo e espaço se relativizam perante o universo simbólico proposto pelo diretor cênico.

A produção tem bons achados. A estrutura semicircular que serve de cenário à primeira cena do primeiro ato, em seguida dá as costas ao público, revelando a estrutura metálica que a sustenta e, de quebra, os bastidores do palco do Municipal. Tanto nas estruturas como nas marcas visíveis no chão do palco, há a sugestão de um mundo em construção, processo que se dá por meio da memória e seus enganos, das representações imaginárias que criamos no cotidiano. No espaço íntimo do inconsciente, nada é necessariamente o que parece ser. Quando, no início do segundo ato, o duque afirma as virtudes do amor romântico, o faz apenas para negá-lo logo em seguida. Gilda, naquele instante, não é mais do que uma representação - e, no fim, é o desejo, incontrolável, que fala mais alto.

Há nesses elementos, assim como no efeito construído a partir do espelho de água no terceiro ato, leituras interessantes mas, no excesso de simbolismo, o drama fica em suspenso - e então há um descompasso entre o que ocorre no palco e no fosso. Rigoletto não é um Verdi qualquer. Mesmo que ainda ligado à tradição, o compositor começa nesse momento a questioná-la em busca de efeitos que permitam a reinvenção do drama musical italiano. A música vai descrevendo, aos poucos, a destruição do mundo de Rigoletto. Faz isso por meio de uma enorme riqueza de contrastes que, nesta montagem, são jogados a um segundo plano no momento em que o diretor opta por criar, desde o início, um clima sombrio de tragédia.

Solistas. A regência de Abel Rocha é fluida, teatral, dá espaço aos cantores. Traz, em resumo, todas as qualidades de um bom regente de ópera - mas esbarra nas limitações da Orquestra Sinfônica Municipal, que ainda tem um caminho longo a percorrer no processo de sua reestruturação, depois de quase três anos da reforma que interrompeu a programação: o desempenho foi apenas correto e, em alguns momentos, em especial no segundo ato, demonstrou problemas de articulação que impedem a música de respirar naturalmente.

No que diz respeito ao desempenho musical, porém, a grande decepção foram os solistas internacionais convidados. O tenor norte-americano Leonardo Capalbo é um duque desenvolto em cena, mas o timbre é pouco expressivo, em especial nas regiões mais agudas da voz. A soprano russa Alexandra Lubchansky teve uma noite particularmente infeliz: abusando do vibrato, sofreu com problemas de afinação desde suas primeiras intervenções. Já o Rigoletto do barítono irlandês Bruno Caproni cresceu ao longo do espetáculo, obtendo desempenho melhor no terceiro ato, quando teve mais atenção aos contrastes do papel e ao legato, tão fundamental na escrita verdiana. Atuações corretas dos baixos Stephen Bronk e Luiz Molz, como Monterone e Sparafucille, e da meio-soprano Luisa Francesconi como Madalena.

RIGOLETTO

Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3397-0300. 4ª a 6ª, às 21 h; sáb., às 20 h; dom., às 17 h. R$ 15 / R$ 70.

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