Gustavo Carvalho/Divulgação
Gustavo Carvalho/Divulgação

Verdade ou ilusão?

Grupo Magiluth, do Recife, faz questionamento sobre limites entre real e ficção

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES CURITIBA, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2012 | 03h08

Homens que tentam fazer teatro. Tentam estar no mundo. Procuram desvendar o que vai dentro do outro e também deles mesmos. Seres que o grupo Magiluth, do Recife, chama de "homens tentativos" e que impregnam a trilogia de espetáculos que eles trazem a esta edição do Festival de Curitiba. Na sequência, as peças também chegam a São Paulo

Único representante do Nordeste na mostra oficial, o coletivo encena, amanhã e sexta, a peça Aquilo Que Meu Olhar Guardou para Você. Nessa, que é sua criação mais recente, a direção esteve a cargo de Luiz Fernando Marques, encenador reconhecido por seu trabalho à frente do paulistano Grupo XIX de Teatro.

O público paranaense também pôde conferir outros dois trabalhos anteriores da companhia de Pernambuco: O monólogo 1 Torto flagra um homem a escrutinar os próprios sentimentos. Alguém que coloca seu coração para fora do corpo para conseguir se examinar. Já em O Canto de Gregório o foco é oposto. Neste texto de Paulo Santoro, que já mereceu versão de Antunes Filho, é a racionalidade que assume o primeiro plano.

Aparentemente, Aquilo Que Meu Olhar Guardou para Você joga com essas oposições. "Aqui, estão seres entre o racional e o emotivo, exatamente aquilo que é o homem contemporâneo. Esse homem que quer sentir, mas sabe que existe um perigo em tudo isso", diz o ator Pedro Villela.

Em cena, os cinco integrantes mostram-se em busca de encontros e entendimento. Surgem como os tais "homens tentativos". Mas também se mostram sempre receosos da perda e da exposição. Figuras cindidas entre o desejo e a fragilidade.

Outro norte da montagem são os limites entre verdade e mentira, ficção e realidade. Concebida de forma coletiva, a dramaturgia combina elementos biográficos de seus participantes a narrativas inventadas. Embaralha as peças a ponto de o espectador não saber no que nem em quem deve acreditar. Também lida com as referências urbanas de cada local no qual se apresentam, evocando lugares que fazem parte da rotina daquela plateia.

Mas, no caso do Magiluth, verdade não é apenas um dado que se manifesta na questão temática. Extrapola esse aspecto e serve como baliza para a própria forma do espetáculo.

Com quatro obras no repertório, o grupo sempre teve o real como elemento de criação. Na peça 1 Torto, eles chegam a usar a denominação reality show. "Mas, assim como acontece nos reality shows, existe no espetáculo uma grande dose de manipulação", comenta o ator Giordano Castro. Outro sinal dessa preocupação com a autenticidade se dá nas interpretações, pautadas não pela representação de personagens, mas por uma presença de ordem performática.

Em sete anos de existência é a primeira vez que o grupo trabalha com um artista de fora de seu círculo. A participação do diretor Luiz Fernando Marques potencializou a relação de proximidade com o público. Gradativamente, a encenação rompe com as fronteiras entre palco e plateia. E, em sua parte final, leva os espectadores para dentro da cena. "É um risco. Nem sempre essa interação dá certo. Mas esse é o preço de fazer algo no presente e de verdade", diz Pedro Villela.

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