Verdade ecoa nos acordes finais

Controle do volume emotivo é mérito da direção de Dueto para Um

Crítica: Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

Para a personagem feminina da peça Dueto para Um, o dramaturgo britânico Tom Kempinski prescreve uma ampla reserva de episódios patéticos, sem dúvida coerentes com os sentimentos provocados pelas doenças graves e incuráveis. Em contrapartida, o psiquiatra que preside os encontros de finalidade terapêutica se molda sobre a imagem clássica do psicanalista racional, sóbrio e prudentemente distanciado do sofrimento da paciente.

Em resumo, trata-se de uma peça em que as ações e reações se equivalem como a exatidão das pesagens de pacotes. Sob rédea firme, a narrativa avança aos poucos, um passo de cada vez, até que se desvende a "verdade" da personagem feminina. Segundo esse modelo textual derivado da tradição da "peça bem-feita", em que as contradições devem resolver-se no fim do espetáculo, o equilíbrio dos elementos de composição é a um só tempo valor estético e reafirmação de confiança na boa ordem do cosmos. Talvez seja a nostalgia das soluções para a vida um dos motivos que mantêm em cena essa peça que não se distingue das centenas de narrativas do mesmo tipo que alimentam o cinema e a televisão e ainda predominam na cultura norte-americana. Nesse tipo de história, não há lugar para dúvidas.

Sob a ótica do espetáculo o maior atrativo da peça, no entanto, é a oportunidade de exibir a atuação de uma dupla de intérpretes em uma situação dramática relativamente despojada de referências aos signos do mundo exterior. São personagens que se constituem no embate da interlocução, no presente da ação, sem recorrer a memórias e narrações extensas sobre o que se passa fora de cena.

No espaço recluso e íntimo da relação terapêutica valem tanto as palavras quanto os gestos que as contrariam; as tonalidades e intensidades vocais constituem outro discurso, este às vezes paralelo ao conteúdo aparente das falas. Mesmo que todos esses elementos conflitantes sejam, de acordo com a perspectiva de Kempinski, etapas do percurso em direção a um sentido único, o trajeto convida a nuances, a pausas para sugerir o dinamismo psíquico e à exploração de efeitos de contraexpectativa.

Sob a direção de Mika Lins, os dois intérpretes não deixam esquecer que as personagens, de um modo e de outro (ela como artista e ele na condição de público), vivem sob a atmosfera refinada da alta cultura e devem parecer incapazes de transbordamentos piegas. Por meio de um deslocamento silencioso que modifica os ângulos de visão, a cenografia de Cássio Brasil dramatiza de modo enfático a evolução dos encontros terapêuticos, uma vez que, na encenação, as personagens definem as modificações interiores com a ajuda de detalhes, quase em surdina, cuidando para não embarcar na tentação dos clichês de emotividade.

Há grandes oportunidades para pieguice e o espetáculo escapa de quase todas e, neste caso, não é pequeno o mérito de uma direção que opta pelo controle do volume emotivo.

O resultado, desejado e esperado, é a abertura de uma área privilegiada para o exercício da vocação e do excepcional preparo de Bel Kowarick. São ótimos os dois atores deste espetáculo e a discrição a que o texto confina o psiquiatra interpretado por Marcos Suchara não exige menos do ator que, em baixo relevo, sustenta com muita firmeza o desempenho mais saliente da sua parceira em cena. De qualquer modo, como sujeito e agente da relação terapêutica, a personagem da violoncelista com a carreira interrompida pela doença é o impulso para o diálogo e, portanto, protagonista em uma dramaturgia de formato convencional.

Com a experiência prévia de formalizações textuais mais abertas e outros modos de produção, Bel Kowarick se aproxima da sua personagem pela face inversa do protagonismo. Através da arrogância aparente das primeiras sessões, percebe-se a pulsação trêmula do medo, a timidez e o ocultamento imperfeito da devastação interior da personagem. Desse modo, fundem-se a máscara pública do artista e a couraça que resguarda do olhar do próximo todos os outros sofrimentos.

DUETO PARA UM

Sesc Consolação. Espaço Beta (60 lug.). Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, 3234-3000. 5ª e 6ª, 21 h. R$ 10. Até 1º/10.

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