Verbetes na ponta da língua

MARIA JOÃO MARTINS

O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h08

Da vida de Luís Vaz de Camões (c. 1524-1580) pouco se sabe; consta que, aventureiro, era tão rápido a manejar a espada como a entregar o coração. Em relação à sua poesia, contudo, há mais certezas - como a de que funciona como um sol em torno do qual gravitam Bocage, Jorge de Sena, Fernando Pessoa, Almeida Garrett e Caetano Veloso, entre tantos outros dignos de figurar aqui. Demonstram-no as 1.008 páginas do Dicionário de Luís de Camões, coordenado por Vítor Aguiar e Silva, que a Editorial Caminho porá à venda em Portugal a partir da próxima terça-feira. Pelas suas páginas pode avaliar-se a extensão de temas para a qual remete à obra do autor da grande epopeia de língua portuguesa, desde a recessão da sua poesia em vários sistemas literários mundiais até a identidade de várias amadas e musas que lhe são atribuídas. "Erros meus, má fortuna, amor ardente" em sua perdição se conjuraram.

Para Vítor Aguiar e Silva, este desafio monumental nasceu há mais de seis anos, lançado pelo agora presidente da Associação Portuguesa de Escritores, o poeta José Manuel Mendes. Professor catedrático da Universidade do Minho, com obra reconhecida internacionalmente nas áreas da Teoria da Literatura e da Literatura Portuguesa do Maneirismo e do Barroco, Aguiar e Silva, de 72 anos, hesitou antes de aceitar o repto, apesar do curriculum que tanto o autorizava. Depois de longo e aturado estudo, entregou à Caminho (editora de José Saramago e Mia Couto) um plano detalhado de trabalho. Estávamos no princípio de 2009. Dois anos e meio depois, o resultado aí está com forma de volume. "Não foi tarefa fácil. Antes de mais porque se havia verbetes óbvios (Os Lusíadas, por exemplo), outros nem tanto", esclarece-nos o coordenador da obra. À partida, Aguiar e Silva tinha dois grandes objetivos: "Deixar bem caraterizada a época literária de Camões e as suas relações artísticas" (e é por isso que encontramos no Dicionário verbetes dedicados a António Ferreira, Sá de Miranda ou ao espanhol Garcilaso de la Vega) e a atualidade da sua obra, um clássico universal sempre revisitado, mesmo por quem não o lê: "Creio que Eduardo Lourenço tem muita razão quando diz que Camões criou a única mitologia portuguesa. Em Portugal continuamos a invocar abundantemente figuras como Adamastor e o Velho do Restelo".

A universalidade de Camões levou Vítor Aguiar e Silva a desafiar investigadores espanhóis, italianos, norte-americanos e, como não podia deixar de ser, brasileiros. Um deles é Márcia Arruda Franco, professora da Universidade de São Paulo, particularmente devotada ao estudo de outro poeta português do Renascimento Sá de Miranda. Autora de seis verbetes deste Dicionário, considera a sua colaboração na monumental obra como "a oportunidade de diálogo com pesquisadores da minha geração e de gerações anteriores, todos empenhados numa releitura de Camões e do século 16, do ponto de vista histórico-cultural e poético. O dicionário de uma obra é o seu comentário e a sua redefinição, este labor coletivo de revisão do camonismo funcionará como uma nova referência para os estudos críticos e para o ensino de Camões, gerando reinterpretações da sua poesia".

Márcia apresenta aqui seis verbetes, "o mais importante", diz, "sobre o tema do desconcerto do mundo, central na sátira de Camões". Mas ainda escreveu sobre o "horacianismo em Camões, apontando alguns lugares da sua poesia erótica, evidentes emulações de Horácio"; os "dois labirintos camonianos, Sois Uma Dama e Corre sem Vela e sem Leme, que trabalham a linguagem poética como jogo verbal" e ainda sobre dois ilustres camonistas, Afrânio Peixoto, o médico brasileiro responsável pela inauguração da Cátedra de Luís de Camões, na Universidade de Lisboa e o conde de Ficalho, o botânico oitocentista e amigo de Eça de Queirós, autor de uma interpretação competente da Ilha dos Amores, na sua admirável Flora de Os Lusíadas, de 1880.

Márcia Franco não está sozinha. Neste Dicionário surgem ainda outros brasileiros que, citando Caetano Veloso, roçaram a língua de Camões: Gilberto Mendonça Teles, Leodegário A. De Azevedo Filho, Maria Helena Ribeiro da Cunha e Sheila Moura Hue. Vítor Aguiar e Silva esclarece que nem poderia ser de outra maneira: "O Brasil tem alguns dos mais importantes camonistas do mundo, numa tradição que foi introduzida pelo português Fidelino Figueiredo ainda na primeira metade do século 20 e logo seguida por figuras como Sigismundo Spina, criador da Revista Camoneana (hoje só publicada on-line) ou Cleonice Berardinelli. Márcia Arruda Franco também não tem dúvidas quanto à "presença constitutiva de Camões na literatura brasileira de agora". Basta, para entendê-lo, "apontar a referência ao Poeta na cultura de massa, incluídas aí não só a poesia cibernética de Glauco Mattoso, que escreveu mais sonetos do que Camões e Petrarca, mas também a MPB, a conhecida Língua, de Caetano Veloso, e Monte Castelo, de Renato Russo. "Para o homem que, reza a lenda, perdeu o olho direito a defender a presença portuguesa em Ceuta, no Norte de África, e ficou reduzido à miséria enquanto escrevia Os Lusíadas, em Macau, esta universalidade é uma forma de justiça poética. "Se mais mundo houvera, lá chegara."

Coordenado por Vítor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, o projeto começou a ser executado em 2009

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