Verbete do Dicionário de Luís de Camões, Caminho Editorial

RECEPÇÃO DE CAMÕES NA LITERATURA BRASILEIRA. A influência da obra e do nome de Camões na poesia brasileira, de Bento Teixeira a Carlos Drummond de Andrade, ou, mais precisamente, das origens da literatura no Brasil aos escritores da atualidade, deve ser estudada com a consciência de que a obra literária é antes de tudo a instauração de um determinado tipo de linguagem, que "o objeto da história literária não é a gênese das obras" (Todorov), mas "o estudo da variabilidade literária, isto é, da evolução da série" (Tynianov) e que "A história comparativa de uma literatura nunca deve esquecer a outra história, a interior" (Pichois).

12 de novembro de 2011 | 06h00

O prestígio da obra de Luiz Vaz de Camões - a sua poesia épica, lírica e dramática - e, de maneira mítica, o fulgor de seu nome repercutem em todos os níveis da cultura brasileira, atingindo com igual força tanto a produção literária como as mais variadas manifestações da cultura popular. Daí o sentido de Camonema que, como um tópico universal, recobre toda a cultura brasileira, motivando a ideia e a prática de uma Camonologia, uma série de estudos e iniciativas culturais em torno de Camões.

O processo de transformação do discurso literário no Brasil se verificou e ainda se verifica sob a influência de Camões, cuja obra repercute na poesia, atuando profundamente na concepção poética e motivando um sistema retórico camoniano, muito mais susceptível de desgastar-se entre os epígonos que muitas vezes não leram diretamente a obra de Camões, mas sim através dos grandes escritores que o citaram. Num e noutro caso, o certo é que em todos os momentos da literatura brasileira a corrente camoniana - a presença modelar de Camões - foi e continua sendo uma constante nos temas, nas imagens, na estrutura dos versos e até na man b) A continuidade da fusão do lírico com o épico, como na poesia de Cassiano Ricardo, Jorge de Lima, Carlos Nejar e Fernando Py, que vão fundir os traços épicos de Os Lusíadasnuma forma intertextual de grande expressão lírica. c) O aparecimento, em 1886, de uma Camoniana Brasileira, do barão de Paranapiacaba, livro que será o símbolo de um novo sentido impresso à obra de Camões: o de servir de modelo didático para o ensino da língua portuguesa, fato que não só interferiu na crítica literária como gerou uma série de contos satíricos sobre gramáticos. Antes, havia aparecido em Portugal Os Lusíadas do Século XIX, de João Félix Pereira, com as mesmas pretensões. d) A publicação de A República dos Tolos, em 1881, obra satírica do Pe. José Joaquim Corrêa de Almeida sobre a cidade do Rio de Janeiro. Essa obra é o coroamento de tentativas semelhantes, de poema herói-cômico, e o ponto de partida para uma série de deformações humorísticas de Os Lusíadas, que ajudaram a popularizar o nome de Camões, transformando-o em personagem do folclore nordestino. e) A publicação, em 1880, de um número especial da Revista Brasileira, em homenagem a Camões, nela colaborando, além do imperador D. Pedro II, cinquenta escritores. Deve-se a esse acontecimento a origem do sentido oficial, do governo, com relação a Camões. Do lirismo à lírica moderna. É no século XVII, em torno de Vieira e sob o orgulho nativista da expulsão dos holandeses, que vão surgir os dois primeiros poetas líricos luso-brasileiros que incorporaram abertamente versos de Camões na sua obra: Gregório de Matos, cuja obra só começou a ser publicada em 1923, mostra em vários textos o seu modelo camoniano. Para dar apenas um exemplo: no Poema ao Desembargador Dionísio de Ávila, o verso final de cada estância [oitava] é de Camões, como vem aliás indicado pelo próprio poeta. O grande problema é que a "obra" de Gregório de Matos não foi ainda devidamente expurgada dos textos que lhe são atribuídos. Na fala nos "celebrados poemas daquele lusitano Apolo, o insigne Camões". A obra de Manuel Botelho tem sido injustiçada pela crítica, pois realmente se trata de um bom poeta barroco. Desconhecendo a sua habilidade métrica e a sua capacidade de trabalhar as imagens da retórica barroca, a crítica concede-lhe uma única exceção: a silva À Ilha da Maré, que tem muito da concepção camoniana da Ilha dos Amores.

A influência lírica, que pode ter como fonte tanto as Rimas como Os Lusíadas (através de seus episódios líricos ou por intermédio da metamorfose do épico em lírico), pode ser percebida com bastante facilidade até o romantismo, quando a obra de Camões foi mais imitada que recriada pelo poeta luso-brasileiro. Cláudio Manoel da Costa reconhece a sua dívida para Camões, pois escreve no "Prólogo ao leitor" o nome de alguns poetas que o influenciaram, entre os quais "Camoens". Basílio da Gama deixou no pouco de sua poesia lírica as marcas de uma forte leitura de Camões, a ponto de transplantar versos inteiros ou apenas modificá-los ligeiramente, extraindo-os tanto da épica como da lírica. Alvarenga Peixoto deixou poucos poemas, mesmo assim revela no Canto Genetlíaco, em oitava rima, a forma camoniana. Tomás Antônio Gonzaga mostra-se no seu lirismo como admirador de Camões.

Silva Alvarenga, um dos mais importantes "teóricos" da poesia oitocentista entre nós, não esquece o nome de Camões. No poema Ao Vice-Rei Luiz de Vasconcelos e Sousa, diz à Musa: "Vamos pois a preparar, / Que eu te darei as lições;/ Folheando no Camões, / Bem podemos remendar / Odes, sonetos, canções."Além de ser a primeira vez que se vê o nome de Camões citado com referência à sua obra lírica (pois sempre se citou a épica), o poema de Silva Alvarenga é uma bela sátira à poesia encomiástica da primeira metade do século XVIII. No lirismo romântico, Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias são os únicos que citam epígrafes de Camões, da lírica ou da épica. Álvares de Azevedo chega a glosar versos de Camões."

Gilberto Mendonça Teles

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