Verão para não esquecer

Festival resgata obra cultuada da dupla Rouch e Morin

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h09

E o 17.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade chega ao fim, com a atribuição, hoje à noite, dos prêmios aos melhores desta edição, no Cinesesc. A cerimônia está apontada para começar às 20h30 e uma hora mais tarde, às 21h30, será exibido o longa vencedor da competição nacional. Amanhã, no mesmo horário, o Cinesesc apresenta o vitorioso da competição internacional. Quais serão esses filmes?

As sessões de longas vencedores carregam sempre a promessa de se assistir a obras de exceção, mas o fim de semana de encerramento do É Tudo Verdade reserva outras atrações especiais. Hoje, às 14 h, haverá a exibição da versão restaurada de Cabra Marcado para Morrer, documentário de Eduardo Coutinho que muita gente considera não apenas o melhor do autor, como o de todo o cinema brasileiro. Sempre haverá controvérsia quanto a isso. Santiago, de João Moreira Salles; Edifício Master, do próprio Coutinho; e, independentemente de duração, o curta Viramundo, de Geraldo Sarno, que integra a coletânea Brasil Verdade, poderiam muito bem ambicionar o posto. A Sala Cinemateca abriga outras projeções de filmes de Coutinho, incluindo, da série Globo Repórter, Teodorico, o Imperador do Sertão (hoje, 18 h) e O Pistoleiro da Serra Talhada (amanhã, 18 h).

Mas há um outro programa especialíssimo - A Crônica de Um Verão, amanhã, também na Sala Cinemateca. Especialistas em documentários dirão que há um antes e um depois na história do cinema do real, que toma como ponto de partida justamente o filme que Jean Rouch e Edgar Morin realizaram em 1959. Na verdade, Crônica de Um Verão estreou somente dois anos depois, em 1961, no Festival de Veneza e o que se comemora, portanto, são os 50 anos do filme. Meio século - um período bastante longo, que já permitiu avaliar as qualidades do filme, o primeiro de Rouch fora do continente africano.

Etnólogo, ele havia descoberto as possibilidades do cinema para seus estudos e investigações de fundo científico. Armado de uma câmera, Rouch esquadrinhou a África e, sozinho ou com alunos, fez filmes como Eu, Um Negro e A Pirâmide Humana. Em Crônica de Um Verão, munidos de uma câmera portátil, com gravador acoplado, Rouch e o antropólogo Morin foram para as ruas de Paris. Aos transeuntes, faziam uma pergunta aparentemente simples, mas que pergunta! Você é feliz?

Talvez seja necessário, para o espectador que vai ver hoje Chronique d'Un Été pela primeira vez, reportar-se àquele verão, em particular. Em 1959, os jovens turcos de Cahiers du Cinéma também estavam filmando nas ruas da capital francesa, e inventando a nouvelle vague. François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol faziam ficção. Rouch e Morin, documentário. A busca de liberdade - na forma, no tom -, os instrumentos técnicos eram os mesmos. O tempo estabeleceu os limites do cinema-verdade, o cinéma vérité, do qual Crônica é um dos expoentes. A liberdade é sempre relativa. E de quem? A pergunta, a escolha dos personagens e a montagem conferem ao filme uma autoria. Crônica de Um Verão não é menos por isso essencial por isso.

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