Vicente de Paulo
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Verão nas passarelas: e Joana Francesas vai à praia

Ano da França no Brasi inspira o próximo verão

Lilian Pacce e Mariana Abreu Sodré, Especial para O Estado

17 de junho de 2009 | 08h37

A temporada de lançamentos para primavera-verão 2009/10 marca uma nova era na moda brasileira. Até então grandes concorrentes, os dois principais eventos de moda (Fashion Rio e São Paulo Fashion Week) acabam de se unir sob o mesmo guarda-chuva, o grupo InBrands, e sob o mesmo comando, Paulo Borges. Assim, a SPFW que começa hoje trazendo 40 desfiles talvez seja o último a ter desfiles de moda praia em seu line-up. Sim, este seria um caminho para conciliar as semanas de moda de SP e Rio, um primeiro 3 3 passo para se chegar a um evento de caráter nacional - e não mais local. "É um desejo meu. Vou fazer um convite estratégico às marcas de moda praia, mas não vou impor", diz Paulo, agora diretor dos dois eventos.

 

Seria a semana de moda do Brasil, finalmente? Um evento com nome único em duas cidades? Paulo nega a mudança de nome, mas os rumores animam muita gente como Oskar Metsavaht, da Osklen, que abre hoje a SPFW com coleção inspirada no carnaval e bordados desenvolvidos pelo francês François Lesage (leia-se o mestre nos bordados de alta-costura para maisons como a Chanel). "Se isso acontecer, adoraria desfilar a coleção na SPFW e a praia no Fashion Rio."

 

Benny Rosset, da Cia. Marítima, também se entusiasma. "Sempre achei que moda praia deveria desfilar no Rio, mas essa decisão depende do Paulo (Borges)", explica Benny, que aposta em modelos com muitos drapeados à Madeleine Vionnet e toques oitentistas à Gianni Versace no desfile de amanhã à noite. "É muito sexy, para um mulherão", diz. A foto da capa deste caderno mostra em primeira mão um look da coleção da Cia. Marítima. E nessas páginas, você confere com exclusividade uma prévia das marcas Água de Coco, Poko Pano, Isabela Capeto, Maria Bonita e Ellus.

 

A modelo das fotos é Gracie Carvalho, cujo sucesso prova que, independentemente da cor da pele, uma boa modelo vence por sua beleza e profissionalismo. Esta leonina negra de 18 anos nasceu em Campinas (SP) e foi descoberta em São José dos Campos, onde morou ao longo da vida com a mãe cozinheira e o pai mestre de obras. Em sua quarta temporada nacional, Gracie é uma das novas sensações: fez 23 dos 29 desfiles do Fashion Rio e estreou nas passarelas internacionais em fevereiro deste ano. Fã do estilo da modelo inglesa Kate Moss, diz que a sugestão da inclusão de 10% de modelos negras nos castings da SPFW pode ser benéfica para as modelos negras como ela, só que em início de carreira. "Mas não acho legal impor a cota, os estilistas devem escolher as modelos por vontade e não por imposição", afirma. A opinião de Gracie reflete na verdade a opinião do mercado de moda que está, digamos, ressabiado com o acordo firmado entre a SPFW e o Ministério Público. "Sempre tive modelos de todos os gêneros no meu desfile, o que importa é ser um bom profissional", diz Lino Villaventura. Mas o fato, para jogar água fria nesta fervura, é que um desfile geralmente conta com 30 modelos e quase sempre há três negras entre elas, ou seja, 10%.

 

Outro assunto que mobiliza esta temporada é a dança das cadeiras dos estilistas. A Forum desfila pela primeira vez sob a direção criativa de Eduardo Pombal, que foi braço direito de Tufi Duek que deixou a marca em 3 3 abril (leia texto nas págs. 18 e 19). Gisele Nasser e Andréa Ribeiro substituem Dudu Bertholini e Rita Comparato (da marca Neon) no comando da Cori, apresentando um verão de alfaiataria, cinturas altas e volumes em tecidos nobres, além de algodão e jeans. Andréa já havia trabalhado na Cori como membro da equipe de Alexandre Herchcovitch que, por sua vez, assume o estilo da Rosa Chá, antiga grife de Amir Slama que agora é do grupo Marisol. A Rosa Chá não participa desta SPFW.

 

Dentro da Bienal, onde ocorrem os desfiles, quem cria um clima de alcova para este ano da França no Brasil é Daniela Thomas e Felipe Tassara, embalados pela música Joana Francesa, de Chico Buarque. "A cenografia está levemente erotizada: tem tatuagens sexies de marinheiros nas colunas, muitas cortinas, espelhos, alusões à camiseta navy de Jean Paul Gaultier e um lustre de 6 metros de diâmetro feito com 2.400 garrafas pet que lembra o Palácio de Versalhes", conta Daniela, que desenvolveu estampas tipicamente francesas, mas com ícones nacionais como o Cristo Redentor.

 

Principal e mais antigo reduto da moda, a França sempre inspirou estilistas do mundo todo. Mas o ano comemorativo desencadeia muitas interpretações. Fã de musicais e aluno de aulas de teatro, Fause Haten em sua marca FH promete um formato intimista para seu verão 2010 inspirado nas coristas de 3 3 clássicos como o Moulin Rouge. Paola Robba, da Poko Pano, traz as cores do filme Maria Antonieta, de Sofia Coppola, assim como a tapeçaria, veludos e capitonês pra sua moda praia. Já a Água de Coco propõe looks de uma riviera oriental. "Fomos à Tailândia e ficamos fascinados com as cores e o contraste entre o moderno e o tradicional. Há estampas que somam três mil cores e amarrações que remetem às roupas usadas por monges", conta Renato Thomaz, que prepara passarela coberta por folhas de ouro. "Essas folhas são oferendas aos Budas na Tailândia."

 

Embora seja uma prática comum, os estilistas têm viajado menos para fazer pesquisas de moda. Na Maria Bonita, Danielle Jensen diz ter olhado para as feiras livres e o tempero brasileiro. Já Isabela Capeto brinca: "A inspiração pode vir de um bolinho de carne moída, não tem regra." Ela começa a investir em moda praia e fez oito biquínis para o verão, "todos práticos, pra mulher que corre atrás de filho na praia", com influência da obra expressionista do americano Robert Rauschenberg (1925-2008). "Ele desafiava a matéria-prima e eu resolvi usar tecidos de coleções passadas por uma questão de consciência e de economia. Não dá mais para desperdiçar", diz Capeto, que aposta em muita cor e peças mutáveis como a saia que vira bata. Este conceito da roupa multiuso também vai aparecer na Osklen, Ellus, Gloria Coelho e Cori. Afinal, em tempos de crise, ser funcional pode ser uma boa saída para a moda.

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