"Ver-te-ei no Inferno" de Martin Ritt chega ao DVD

Em fevereiro, o Festival de Berlim dedicou sua retrospectiva ao cinema independente americano dos anos de ouro - o período que vai de 1966 a 76, quando a sociedade dos EUA viveu as convulsões da Guerra do Vietnã e do escândalo de Watergate. Em todo o mundo, a pílula e a minissaia já vinham sacramentando uma mudança de comportamento que, somada às particularidades do momento vivido pelo país, terminou por levar ao arquivamento do chamado Código Hays, que disciplinava o uso do sexo e da violência no cinema americano. E surgiram filmes como A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate), de Mike Nichols, Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde), de Arthur Penn, e Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch), de Sam Peckinpah. Tudo isso é história, mas houve outro filme fundamental para quem quiser entender a (r)evolução do cinema americano na época. Está sendo lançado em DVD pela Paramount (R$ 37,50), infelizmente sem os extras que merecia (e até exigia). Chama-se Ver-te-ei no Inferno. No original, é The Molly Maguires, título que vem da sociedade secreta que cometia atentados terroristas em minas da Pensilvânia, no século 19. Ver-te-ei no Inferno é uma raridade - um dos pouquíssimos filmes produzidos por Hollywood a discutir temas como revolução e terrorismo sem os clichês de aventuras que, quase sempre, banalizam as incursões do cinema americano por esses assuntos. Vale reconstituir um pouco da história. Por volta de 1930, Sergei M. Eisenstein foi chamado para fazer um filme nos EUA. Escolheu o romance de Theodore Dreiser, Uma Tragédia Americana, convencido de que lhe permitiria discutir a sociedade de classes dos EUA. A produção, em regime de cooperativa, estava sendo armada por comunistas históricos de Hollywood. O projeto nunca se consumou e Eisenstein, convencido por amigos como Charles Chaplin e Upton Sinclair, foi fazer o inacabado Que Viva México!. Só em 1954, quando Herbert Biberman filmou uma greve de mineiros no Novo México - que resultou em Salt of the Earth (O Sal da Terra) -, o cinema americano ousou enfrentar o tema da revolução. Passaram-se mais de dez anos até que, em 1962, Richard Brooks recorresse à eletrizante ação de Os Profissionais para exaltar a permanência do ideal revolucionário e 15 até que Martin Ritt - em 1969, um ano após o mítico 68 - transpusesse para as minas da Pensilvânia o mesmo conflito de O Delator, de John Ford, de 1935. Ver-te-ei no Inferno conta a história dessa organização de mineiros que combate os donos das minas explodindo suas galerias. É uma sociedade secreta de irlandeses - como a do romance famoso de Liam Flaherty, que, mais de 30 anos depois de Ford, Jules Dassin também usou como ponto de partida para O Poder Negro, feito um pouco antes (1968) do clássico de Ritt. Sean Connery, na maior criação dramática de sua carreira, faz o líder dos mineiros. Chega esse estranho interpretado por Richard Harris. É um traidor infiltrado no grupo. Criam-se relações muito complexas, porque uma das características - a característica dominante - de Ver-te-ei no Inferno é justamente fugir aos estereótipos. Ritt e seu roteirista, Walter Bernstein entraram para as lista negra criada pelo macarthismo, por volta de 1950, para vigiar e punir os suspeitos de atividades antiamericanas no cinema de Hollywood. Anos mais tarde, em 1976, ambos reconstituíram essa fase de suas vidas em Testa-de-Ferro por acaso (The Front), colocando Woody Allen na pele do sujeito que empresta o nome para que artistas bloqueados pela lista negra possam seguir trabalhando. Se você viu Testa-de-Ferro por acaso, com certeza deve lembrar-se do desfecho, quando o personagem de Woody Allen - um homenzinho frágil e um tanto covarde - cresce a ponto de fazer, na ficção, aquilo que os black listed não tiveram coragem de fazer. Alguns, como Elia Kazan e Edward Dmytryk, até aceitaram colaborar com o macarthismo. Foi uma fase trágica da vida americana - um pouco como a atual, mas não exatamente pelas mesmas razões. O clássico de Ritt ganha agora nova dimensão e, depois dos atentados de 11 de setembro, estimula uma reflexão que é ainda mais perturbadora do que em 1969-70, quando irrompeu nas telas.

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