Ver para descrer

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

Se há divisor de gerações no nosso tempo, ele é a credulidade dos jovens que cresceram no mundo digital. Numa entrevista ao último Sabático, Paul Holdengraber, o erudito diretor de programas públicos da Biblioteca de Nova York, disse temer por uma geração que confia sem reservas na Wikipedia ou no Google. O próprio gigante das buscas online tomou medidas este ano para combater os "content farms", sites que produzem textos superficiais e muitas vezes incorretos, destinados a satisfazer o algoritmo do Google e subir nos resultados das buscas, para faturar mais com publicidade.

A semana passada terminou com um pequeno escândalo para o Facebook, com seus 600 milhões de membros, cujo fundador com cara de bebê, Mark Zuckerberg, já afirmou que a geração dele não se preocupa com privacidade. Uma grande empresa de relações públicas, a Burson-Marsteller, foi manchete por tentar convencer repórteres influentes a escrever artigos de opinião contra a nascente iniciativa de mídia social do Google. A empresa havia sido contratada pelo Facebook para montar uma campanha anti-Google na imprensa.

A roupa suja da guerra por receita publicitária entre as duas corporações - o Facebook domina a mídia social, o Google domina a busca - não ajudou só a alimentar fofocas. Serviu para lembrar que a aura de juventude e transparência - Mark Zuckerberg comandando seu império de chinelos, Larry Paige e Sergey Brin, fundando o Google com o slogan "Não Faça Nenhum Mal" - tem tanta validade quanto uma nota de 100 cruzados novos que achei aqui em casa.

A mentira não é característica de uma geração, mas o premiado jornalista James B. Stewart argumenta que os americanos nunca foram tão expostos à mentira impune. O novo livro de Stewart, Tangled Webs: How False Statements Are Undermining America from Martha Stewart to Bernie Madoff (Redes Emaranhadas: Como Declarações Falsas Estão Minando a América de Martha Stewart a Bernie Madoff), bem que poderia se chamar Maus Mentirosos. Ao mergulhar nos arquivos de casos famosos como o de Bernard Madoff, Stewart descobriu que eram todos mentirosos incompetentes. Anos antes de ser condenado a 150 anos de prisão por fazer evaporar US$ 65 bilhões de investidores, Madoff dizia tanta asneira ao ser questionado por seus resultados suspeitos, que os investigadores comentavam entre si como seria fácil pegar o homem só pelo crime de perjúrio.

Martha Stewart, a rainha da indústria das prendas do lar, já havia admitido que, sim, vendera suas ações na companhia de um amigo com base em informações privilegiadas. Ia escapar com um tapinha na mão. Mas voltou atrás em cima da hora, convencida de que era melhor mentir. Foi para o xadrez por perjúrio, não por crime financeiro.

Outra manchete do festival de mentira que assola o país foi a condenação de um dos mais poderosos investidores de Nova York, Raj Rajaratnam, que chegou a controlar US$ 7 bilhões em investimentos. Rajaratnam deve ver o sol nascer quadrado, no mínimo, por 15 anos, se um tribunal de apelações mantiver sua condenação. A vitória do promotor público foi obtida com grampo telefônico em que ele é ouvido ensinando seus asseclas a mentirem por email para cobrir as pegadas de seus crimes financeiros.

Um exame fascinante da mentira foi feito pelo historiador John Mearsheimer, da Universidade de Chicago. Ele acaba de publicar Why Leaders Lie: The Truth about Lying in International Politics (Porque os Líderes Mentem: A Verdade sobre Mentir em Política Internacional).

Mearsheimer afirma que os líderes mentem menos para os outros países do que para o público interno. Os grandes poderes já desconfiam uns dos outros, estão sempre investigando alegações feitas mesmo entre aliados, de modo que mentir descaradamente é uma perda de tempo.

Já a mentira que chefes de estado e de governo contam aos seus compatriotas pode ter pernas curtas, mas consequências trágicas. Mersheimer destaca três grandes mentiras para levar os Estados Unidos à guerra e perdoa a primeira delas. Em setembro de 1941, Franklin Roosevelt mentiu sobre um incidente entre um destróier americano e um submarino alemão para convencer um público profundamente isolacionista a entrar na 2.ª Guerra. Fracassou, mas foi ajudado pelo ataque japonês a Pearl Harbor, três meses depois.

Em 1964, Lyndon Johnson mentiu sobre o incidente no Golfo de Tonkin para envolver os Estados Unidos no Vietnã. George W. Bush mentiu sobre as armas de destruição em massa para invadir o Iraque.

E o que foi o grande crash financeiro de 2008 senão o produto da aliança entre mentirosos e crédulos?

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