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Ver

O preconceituoso tem olhos e não vê, enxerga e nada distingue

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2020 | 21h59

A limitação da visão é frequente e, no caso de muitas pessoas como eu, a idade traz auxiliares ópticos. Eu não teria acesso a textos sem o auxílio de lentes. Minha presbiopia é um fenômeno que cresce a cada ano. Confessei, em público, que um grande medo pessoal era ficar cego. Os filósofos estoicos recomendam que não nos angustiemos com aquilo que não podemos mudar. Abandonei parte do temor. 

O resíduo de meu receio tem a ver com não poder ler mais. Isso é um engano. Eu não precisaria parar de ler, apenas teria que me reeducar para voltar a ler de outra forma. A educação de cegos é antiga e sólida no Brasil. Ainda no século 19, a atuação de José Álvares de Azevedo e de Benjamin Constant já auxiliava com medidas e instituições como o ainda atuante Instituto Benjamin Constant. Hoje, temos muitos recursos médicos e auxiliares técnicos que se juntaram à famosa escrita tátil, o Braille. Há audiolivros, softwares que transformam em voz o que está escrito e diversos outros recursos. Há o ensino obrigatório por meio do uso dessas adaptações a alunos com deficiência em escolas e universidades. Avançamos.

Ver é um milagre. Ver pouco ou nada limita, todavia não impede grandes realizações. Temos de identificar que houve/há cegos/deficientes visuais importantes em todos os campos criativos: Homero, Ray Charles, Andrea Bocelli, Stevie Wonder, J. Sebastian Bach, Aldous Huxley, Jorge Luís Borges, Claude Monet. Alguns jamais enxergaram, outros tiveram limitações visuais na maturidade. Consagrado e com enorme sucesso, o norte-americano (nascido em 1971) John Bramblitt pinta quadros de cores vivas. Sua visão se deteriorou depois dos 30 anos. Ele reagiu mal no começo e, hoje, afirma orgulhoso: “Para mim, o mundo é muito mais colorido agora do que era quando eu enxergava”. O mesmo ocorre no rico campo do atletismo paraolímpico. Nosso país é dominante nas quadras do futebol de 5, por exemplo. Não ver pode revelar talentos desafiados pelo destino. Quando algumas portas se fecham para um ser humano, outras são ampliadas.

A ficção também consagrou talentos sem visão. O filme Perfume de Mulher (Martin Brest, 1992) mostrou um genial Al Pacino sedutor (levou Oscar). Luzes da Cidade (Chaplin, 1931) retrata uma florista que não vê o genial ator como um vagabundo errante. Dançando no Escuro (Lars von Trier, 2000) é perturbador ao mostrar o talento de Björk como deficiente visual em luta pelo filho. 

Vamos retroceder no tempo. O imperador Diocleciano (governou de 284 a 305) foi o último a promover uma repressão sistemática ao Cristianismo. É tida como a mais violenta. Na agonia do império romano, os cristãos foram os bodes expiatórios. Dos éditos imperiais surgiram mártires populares até hoje, como Sebastião, Inês, Expedito e Jorge. Em Siracusa, na Sicília, a jovem Lúcia teve os olhos arrancados e acabou decapitada. Seu nome também é aportuguesado como Luzia. Sua imagem tradicional é de uma jovem com uma bandeja onde exibe dois inquietantes globos oculares. Com a visão restabelecida por Deus e mais a aproximação entre Lúcia/Luzia com a palavra latina para luz (lux), ela assumiu o papel de padroeira da visão no mundo católico. 

O culto é forte, da Suécia ao Brasil. Sua festa é 13 de dezembro. Em alguns lugares interioranos, crianças ainda conservam o costume de colocar capim para o cavalinho de Santa Luzia na véspera, ganhando doces em troca. A siciliana antecede e anuncia a peregrinação do Papai Noel pois, em doze dias, teremos o Natal. Além da cultura popular, Dante Alighieri colocou Santa Luzia no Nono Canto do Purgatório. Na Divina Comédia, ela deve acordar o poeta para ver a verdadeira luz da fé. Abrindo olhos biológicos e metafísicos, o dia de Santa Luzia traz uma deixa sobre o ato de ver. 

Ver é algo complexo. Literatos e místicos destacaram a posição superior do olhar interno, da combustão de uma sarça inconsumível que estaria longe da percepção imediata de Moisés. Jesus manda arrancar o olho que causa pecado e destaca que seria melhor entrar no céu com apenas um olho do que possuir ambos no inferno (Mt 18,9). Saulo foi cegado e, quando voltou a ver (já como Paulo), havia renascido em Cristo. 

Quando teve de enfrentar seu maior desafio (realizar um bombardeio de precisão na Estrela da Morte de Star Wars), Luke Skywalker recebeu a instrução da “força”: desligar os aparelhos e confiar na visão interna e intuitiva. A fixação nos olhos seus e das máquinas impediria a tarefa. O que ele precisava contemplar estaria dentro dele. É ficção, claro, porém traduz uma metáfora antiga: há os cegos de nascença e os que ficaram sem visão ao longo da vida, com a luz obliterada pela artificialidade.

Hoje, no dia do cego, dia de Santa Luzia, creio que a visão, nesse sentido mais profundo, pode ser totalmente perdida ou parcialmente recuperada. O que nunca parece ter fim são os preconceitos. Tê-los é uma espécie de cegueira crônica, difícil de tratar. 

O preconceituoso tem olhos e não vê, enxerga e nada distingue. Ainda não surgiu uma escrita Braille contra a imbecilidade. Não tenho mais medo de ficar cego como outrora. Apenas temo não conseguir a sabedoria. Boa semana para todos e para todas, com boa visão ou sem. 

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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