Vênus sob o olhar racista

Abdellatif Kechiche conta história da africana exibida como curiosidade no século 19

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2011 | 00h00

Com a história de Saartjie (Yahima Torres), o diretor francês, nascido na Tunísia, Abdellatif Kechiche encontra um caso exemplar da mentalidade racista do século 19, com repercussões nos séculos 20 e 21. Vale a pena ser contado. Na Europa do início do século 19, uma mulher sul-africana foi exibida como curiosidade de feira, mulher-gorila, que saía de uma jaula, com corrente no pescoço, exibia-se e, por fim, era tocada por incrédulos espectadores "civilizados". Fez sucesso em Londres e depois se deslocou a Paris, onde o êxito mundano não foi menor.

A Vênus Negra (pois assim era tratada e também este é o título do filme) despertou interesse não apenas em burgueses ávidos por curiosidades, mas também na comunidade científica. O empresário de Saartjie, rebatizada Sara, recebeu excelente proposta do austero Museu do Homem, em Paris para que sua pupila se deixasse examinar. E assim foi feito. Como se poderia prever, Sara teve destino ruim e continuou sendo atração científica mesmo depois de morta. Apenas em 2002 seus restos mortais foram devolvidos à África do Sul, numa espécie de mea culpa da Europa perante a África, por seu passado racista.

Passado? Não é bem o que pensa Kechiche, cineasta que, até mesmo por suas raízes, é bem sensível às nuances do pensamento racial da Europa. "Engana-se quem pensa que o caso de Sara seja datado e apenas uma curiosidade sobre um tipo de mentalidade antiquada", diz. Pelo contrário. De acordo com o cineasta, o racismo entranhado na cultura ocidental do século 19 continua vivo na Europa, com seu mal disfarçado sentimento de superioridade racial.

"Eu havia me interessado por essa personagem através de leituras", recorda Kechiche, "mas o impulso maior veio no ano 2000 quando a África do Sul pediu que seus restos fossem repatriados." Com esse gesto, desvendou-se toda a atualidade da história aos olhos de Kechiche. "Não acho que este seja o filme de uma história passada sem qualquer relação com o presente", garante. Pelo contrário, ela é muito contemporânea, pois esse corpo foi exibido até o fim do século 20 no Museu do Homem.

"Além disso, convém dizer, existe uma atualidade política em toda essa história", destaca Kechiche. Ele recorda que o discurso "científico" de base racista, o dos estudiosos do Museu do Homem à época em que examinaram Sara, foi retomado tal e qual durante a ascensão do fascismo na Europa, nos anos 20 e 30. Teorias da eugenia, como se sabe, estão na base do nazismo. Mas isso também é passado, embora mais recente, se poderia dizer. Kechiche lembra que, infelizmente, esses discursos, que se julgavam extintos mais uma vez, são, volta e meia, ressuscitados pelo pensamento de extrema direita europeu. Continuam a rondar o Velho Continente, agora na forma de intolerância diante de minorias e imigrantes da África ou de outras partes menos favorecidas do mundo.

O caso de Vênus Negra é, portanto, exemplar. E, por sê-lo, Kechiche defende-se de uma das críticas feitas ao filme, a de ter exposto esse corpo da personagem à exaustão (o trabalho da estreante cubana Yahima Torres é magnífico e corajoso). "Acontece que por uma razão de dramaturgia, eu tinha mesmo de mostrar como esse corpo foi esquadrinhado e vilipendiado pela curiosidade mórbida do europeu do século 19." É, de fato, um corpo em sofrimento, o que vemos na tela, exaustivamente olhado e tocado, sob as vistas curiosas da "melhor sociedade" europeia, depois da comunidade científica, dos frequentadores dos bordéis no bas-fond parisiense, e, por fim, na mesa de dissecação dos pesquisadores. O filme é, em muitos sentidos, o relato da trajetória de um corpo em dissolução. E, também, um estudo do olhar europeu sobre quem é diferente. Um olhar sobre o outro.

Quem conhece o cinema de Kechiche, a partir do seu filme anterior, O Segredo do Grão, sabe que, mais que por uma necessidade temática, o uso da repetição e dos planos longos é uma questão de estilo. Não é artista que acredite na síntese e na lacuna como virtudes da narrativa. Pelo contrário, trabalha pela saturação, o que não é defeito, apenas uma escolha. E existe algo de profundamente ético nessa exibição do corpo aos olhares do outro, e que consiste na denúncia da exploração e do eurocentrismo, em especial na França. "Eu precisava contar a história desse corpo, de sua trajetória até o esgotamento e a mutilação final", diz. "Senti algo parecido a um dever moral de relembrar esse caso e fazê-lo com toda a intensidade e respeito."

O fato é que em Vênus Negra, Kechiche reúne, sob sua luz crítica, realidades diferentes, como os mundos do espetáculo, da ciência, da prostituição e da burguesia. Diferentes, porém semelhantes na avidez com que devoram o corpo de Sara.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.