Ventos tropicais de El Guincho

Produtor traz a SP e ao Recife seu pop de timbres e ritmos das Ilhas Canárias

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2012 | 03h09

El Guincho, pseudônimo de Pablo Díaz, virou hit da blogosfera em 2008, com o ensolarado Alegranza!. O disco de estreia adaptou ritmos e timbres das Ilhas Canárias, terra natal do artista, a um contexto contemporâneo de guitarras e samples, tornando-se um trabalho presciente, que anunciou uma era de indie pop marcada por ventos tropicais.

"Há uma semelhança com a música do Pará, feita no Brasil, principalmente a guitarrada. As influências são parecidas. Nas Ilhas Canárias, a música folclórica tem muito da polirritmia africana, mas há um sabor bem sul-americano também, por causa de tantos imigrantes que vieram do continente. Cubanos, venezuelanos, argentinos, como a minha família", conta ao Estado Pablo, que chegou no início da semana a São Paulo para absorver a atmosfera da cidade. O cantor, produtor e multi-instrumentista toca no Sesc Pompeia, hoje à noite, e para o festival Rec Beat, no Recife, a ser realizado durante o carnaval.

Mas não só de timbres praianos é feito o som de El Guincho. Alegranza! e os dois animados embora menos tropicais discos que o sucedem têm as digitais características de um nômade. "Eu morei em muitos lugares. França, Espanha, Alemanha", conta. "A música eletrônica feita de 2004 a 2006 em Barcelona, época em que eu estava lá, foi algo que me marcou bastante. Os produtores de lá influenciaram muito a música internacional da época", completa. Seu tempo passado em Berlim, ultimamente, lhe deu um apreço pela sonoridade de discos clássicos, influência nítida em Pop Negro, seu último.

"Fiz uma pesquisa intensa sobre produtores de hits do fim dos anos 70 ao início dos anos 90. Descobri que estas músicas foram feitas por um grupo pequeno de pessoas." De Bowie a Mariah Carey, a sonoridade artesanal alcançada por produtores da época em questão marcou Pablo e passou a ser um dos focos de Pop Negro, lançado em 2010. A comunidade de engenheiros de som alemães também ajudou: "Eu comecei a mandar e-mails para os caras mais feras. Fui corajoso ou ingênuo, não sei. Fiz perguntas filosóficas e, durante a correspondência, eles passaram a me revelar como faziam aqueles discos", conta. É uma história incomum, pois engenheiros de som são conhecidos por trancarem seus macetes a sete chaves.

A escalação de El Guincho para o Rec Beat é uma esperta escolha por parte da curadoria: um artista internacional de influências múltiplas que ao mesmo tempo tem muito a ver com a música brasileira. Conversando com o Estado, depois de um almoço tradicional baiano, em sua primeira visita ao País, Pablo disse que estava impressionado com São Paulo, "uma cidade bem maior do que parecia ser".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.