Venosa expõe obras de risco e sedução

Avesso a explicações racionaissobre seu trabalho, Angelo Venosa recorre com freqüência à idéiade que há algo de prosaico em sua produção, uma certa casualidadeque faz com que os trabalhos adquiram um rumo totalmente daqueledistinto daquele idealizado inicialmente. Talvez esse caráterintuitivo explique como suas obras - uma seleção delas pode servista a partir desta sexta-feira na galeria Marília Razuk - trazem umforte componente inconsciente. Marcada por uma aparente simplicidade formal, associadaao uso de materiais sedutores, mas que representam riscos reais -como no caso dos trabalhos em vidro -,a arte de Angelo Venosaassocia num mesmo elemento pulsões de destruição e prazer. Oespectador sabe que pode se cortar, mas tem o impulso de tocara escultura construída com perfis de vidro cortante, de seenroscar nas correntes e cordas dos trabalhos. Além dessacontradição entre sedução e risco, Venosa ressalta uma outraoposição que é parte constitutiva de seu trabalho: acontraposição entre uma ordem cartesiana, muito mecânica (talvezoriunda de sua formação como desenhista industrial), e umaatração pelo descontrole."O que me interessa é algo oculto,uma emanação da potência do trabalho. Você pode entender a gênese, mas não tem essa idéia de sentido", diz ele, acrescentandoque o que sempre procurou fazer, nessas duas décadas de dedicaçãoàs artes plásticas, foi tentar reproduzir no trabalho o processode criação que ocorre no ateliê. "Você atira numas coisas atéprosaicas e quando acha que chegou em algum lugar não tem nada aver com que havia no início", diz. E acrecenta: é "como umaneurose, um disco arranhado". Essa característica não é algoexclusivo de Venosa e ajuda a compreender como ele se insere numcontexto bem mais amplo, da produção contemporânea brasileira,dividindo com outros artistas como Tunga e Nelson Félix, porexemplo, esse interesse pelo poder simbólico dos materiais. Além da mostra comercial, o trabalho de Venosa pode seradmirado em outros lugares da cidade. Ele é um dos participantesdo Arte/Cidade, prorrogado até domingo. E uma esculturaque ele fez para participar da mostra Território Expandido,do Prêmio Multicultural Estadão, está sendo exibida na mostra dacoleção de Patricia Cisneros, em cartaz no MAM. Nem o próprioVenosa sabia que a peça, uma homenagem ao psicanalista JurandirFreire Costa, tinha sido adquirida pela colecionadoravenezuelana. Curiosamente, esta peça tem uma íntima relação com ostrabalhos na Marília Razuk. Em vários deles repete-se a idéia defatiamento, de subdivisão do objeto, como se ele estivesse sendosubmetido a uma rigorosa análise científica, mas que no fundonão leva a nenhum resultado de fato. Apenas evidencia ainstabilidade e a complexidade da obra, composta deum grande número de fragmentos. É o que ocorre, por exemplo, noperfil topográfico em cobre que o artista apresenta naexposição. Neste caso ele agregou ainda um outro complicante, arealização à distância.A idéia de trabalhar com cobre o atraía,mas, em vez de trabalhar manualmente o metal - maleável osuficiente para ser recortado com tesoura -, ele decidiu usar umaparelho a laser, que só existe em São Paulo, e passou asorientações técnicas por e-mail, o que acabou gerando uma certa"sujeira" no resultado, que distancia a obra do projetoinicial. Também não é óbvia a relação entre os belos trabalhoscom correntinhas e espelhos e a instalação com cordas que pendemdo teto feita para o Arte/Cidade, mas elas têm a mesma matriz emcomum. "É como se você se movesse pelo olfato. Você segue umatrilha, mas não tem a ajuda da visão", sintetiza.Serviço - Angelo Venosa. De segunda a sexta, das 10h30 às 19horas; sábado das 11 às 14 horas. Marília Razuk Galeria de Arte.Avenida 9 de Julho, 5.719/ loja 2, São Paulo, tel. 3079-0853.Até 31/5

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