Veneza traz de volta os anos hippies

Muitas foram as críticas ao revival desta 55ª edição, que reverencia veteranos

ANTONIO GONÇALVES FILHO , ENVIADO ESPECIAL / VENEZA, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2013 | 02h05

A imprensa italiana definiu 2013 como o "anno horribilis" das galerias particulares. A crise econômica europeia, dizem, é o principal motivo, mas também a pressão fiscal sobre o mercado de arte. Muitas galerias italianas vão fechar as portas até o fim do ano, garantem especialistas. Veneza tenta ressuscitar o objeto de arte vendável depois de toda a revolução conceitual dos anos 1970, da crise da pintura nos anos 1980 e do excesso de instalações invendáveis nos anos 1990. Considerando o que se vê na 55.° Bienal de Veneza, o século 21 será, ao que tudo indica, o da domesticação da rebeldia dos anos 1960.

O olhar retromaníaco de grande parte dos curadores da mostra italiana, a começar por Massimiliano Gioni, é revelador: ao premiar duas "rebeldes" com o Leão de Ouro de Contribuição Artística, as veteranas Marisa Merz e Maria Lassnig, o curador-geral Gioni reconhece ao mesmo tempo a relevância das duas artistas dos anos 1960 e sacia a fome do mercado por clássicos modernos, legitimando o revival.

A crítica italiana chamou a atenção para o fato de o Pavilhão da Itália abrigar, por exemplo, só veteranos dos anos 1970 como Giulio Paolini e Luigi Ghirri. Curiosamente, a Fondazione Prada organizou uma mostra paralela reeditando uma exposição realizada há 44 anos em Berna, Quando Atitudes se Tornam Formas. E nas mostras paralelas se destacam duas outras na mesma direção: Prima Matéria (sobre arte povera) e outra sobre um movimento radical dos anos 1960 no Japão, chamado Mono-Ha. Esses mesmos críticos lembram que tal atitude parece de acordo com uma Bienal ancorada num modelo anacrônico de exposição, típico do século 19.

Há poucos jovens entre os 150 artistas de 37 países representados nos pavilhões da Bienal. Os veteranos são sobreviventes de movimentos estéticos dos anos 1960 e 1970. No "Palazzo Enciclopedico" de Gioni estão, por exemplo, consagrados artistas do minimalismo americano (Carl Andre, Richard Serra). Nos pavilhões nacionais, Alfredo Jaar ocupa o do Chile, Lygia Clark está entre os artistas do Brasil e o fotógrafo checo Josef Kouldelka se destaca no ótimo pavilhão do Vaticano, pela primeira vez na Bienal, encomendando obras a artistas, como o fez no passado com Michelangelo. Sinal dos tempos. O mercado, afinal, tem de se manter ativo.

Mesmo quem ainda não era vivo na era hippie, como o polonês Pawel Althamer, viajou sem passaporte para os anos 1960. Pawel nasceu em 1967, mas tomou LSD, peyote e haxixe para fazer há dez anos um trabalho sobre estados alterados. Em Veneza, ele mostra esculturas de plástico de venezianos (modelos reais) com os corpos em decomposição. Efeito da "onda zumbi" no cinema ou desejo de corresponder ao tema proposto pela curadoria da mostra? Vale lembrar que o modelo adotado pelo curador Gioni para sua mostra, o artista ítalo-americano Marino Auriti (1891-1980), inventou um "palácio enciclopédico" (em 1955) com mais de 130 andares, que abrigaria todo o conhecimento humano, mais seu projeto jamais foi concretizado. A mostra fala, portanto, de utopia (como o de Auriti) e distopia (Althamer).

O Vaticano entrou nessa sintonia temática e organizou sua primeira mostra veneziana em que o Gênesis e o Apocalipse se encontram num mesmo local: a escatologia fica por conta das fotografias de Kouldelka, que mostram os restos da civilização por meio da poluição das águas e de ruínas arqueológicas.

O contraponto do Vaticano tanto pode ser uma leitura debochada do livro do Gênesis pelo cartunista americano Robert Crumb, outro sobrevivente dos anos 1960, hoje com 70 anos, como a heterodoxa interpretação das cartas de tarô feita pelo satânico Aleister Crowley (1875- 1947) com a ajuda da pintora inglesa Frieda Harris (1877-1962).

Para completar o circo místico, Gioni pôs no mesmo espaço os desenhos com a cosmologia pessoal de Carl Jung (1875- 1961) expressa em seu Livro Vermelho e desenhos do antroposófico Rudolf Steiner, que remetem ao misticismo da Europa oriental. No "palácio enciclopédico" de Gioni tem lugar uma verdadeira orgia de pinturas figurativas - que vão da reciclagem folk do americano Jimmie Durham (73 anos) ao grotesco compatriota George Condo (56 anos).

Para não dizer que Veneza esqueceu dos jovens, um lugar foi reservado para eles no segmento Colateral, espécie de paralela. A mostra chama-se Future Generation Art Prize e tem 21 artistas, entre eles premiados como Lynette Yiadom-Boakye e Jonathas de Andrade.

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