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Vende-se até o título

Nunca tinha assistido ao filme A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success, 1957), um drama noir com Tony Curtis e Burt Lancaster.

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2015 | 02h03

O longa fala de J. J. Hunsecker, um influente colunista social nova-iorquino que tem o poder de salvar ou destruir reputações - e o utiliza como lhe convém. Seu parceiro Sidney Falco é um inescrupuloso assessor de imprensa cujo objetivo é alavancar a própria carreira, mesmo que à custa de enganar seus clientes. Ambos se unem para arruinar a reputação de um jovem músico de jazz que deseja se casar com a irmã de Hunsecker - e conseguem fazê-lo sem que o colunista tenha que sujar diretamente as mãos. "Ele tem os escrúpulos de um porquinho-da-índia e a ética de um gângster", descreve um dos personagens. "Eu nunca daria uma mordida em você. É um biscoito recheado de arsênico", declara Hunsecker a Falco, que sorri, orgulhoso.

Naturalmente, o filme me deu várias ideias.

Em primeiro lugar, a partir de agora só vou escrever sobre assuntos que me tragam algum proveito pessoal, por exemplo: as próximas oito colunas falarão sobre a urgência de uma estação de metrô no Mandaqui e de uma escola de sapateado no Lauzane. Entrarei em conluio com uma confeitaria de minha predileção para publicar elogios que serão convertidos em bolos.

A partir daí, acatarei sugestões de pauta oferecidas durante jantares de graça e hospedagens em casas de campo luxuosas de grandes barões da comunicação. Contratarei um porteiro para receber brindes das empresas - estou precisando de um tênis novo e de uma raquete de matar mosquitos -, e subitamente serei obrigada a abrir uma conta no HSBC da Suíça. Um simpático corretor de imóveis, preocupado em diminuir o déficit de moradia neste país, me oferecerá um apartamento em área nobre por metade do preço, com varanda gourmet. Todos passarão a ser muito gentis, ainda que eu continue despenteada.

Irão me convidar para eventos de estirpe e ganharei prêmios inventados só para o meu agrado. Não só conseguirei pagar as minhas contas como me tornarei cliente premium do banco, o que significa que pagarei menos taxas, terei melhores oportunidades de investimento e o gerente deixará de fazer bullying com o meu saldo em conta.

Lá por agosto, quando já estiver elogiando políticos de moral duvidosa e advogando para grandes empreiteiras, serei finalmente aceita entre os meus coleguinhas de poder, o que me autorizará a lutar pelos interesses de quem me for mais persuasivo. Encontrarei belos argumentos em socorro de meus aliados e perdoarei suas faltas usando palavras como "governabilidade" e "golpismo". Serei utilitarista e pragmática.

E chegarei mais cedo em casa utilizando os préstimos da linha Ocre do metrô, que ligará o Sapopemba ao Mandaqui com trens de última geração e um sistema de sprinkler acionado automaticamente quando faz muito calor.

Governo do Estado de São Paulo. Trabalhando por você.

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