Vencedores do Prêmio São Paulo alcançam resultados distintos em sua ficção

Coincidência que dois livros premiados num mesmo concurso, o Prêmio São Paulo 2012, falem da vida a partir dos olhos de crianças: Vermelho Amargo, novela de Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012) foi considerado o livro do ano, enquanto o romance Os Hungareses, de Suzana Montoro, foi a revelação. O prêmio, anunciado esta semana, é um incentivo importante para autores inéditos ou não; além disso, não há nada que se possa acrescentar a respeito - a missão aí está bem cumprida. Resta um olhar sobre os livros, que, à parte o detalhe citado, pouco têm em comum. Um grande contraste entre a novela e o romance é a linguagem escolhida pelos autores. Uma é pobre; a outra, rica. Vejamos.

MOACIR AMÂNCIO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h12

Campos de Queirós pretendeu escrever uma história em que a intensidade poética se sobrepusesse às mesquinharias do cotidiano e, com a riqueza da vida interior, revelasse as belezas e os horrores da vida. Como resultado, temos algo como se a história tivesse sido "traduzida" para um texto que lembra Guimarães Rosa - com quem o autor dialoga, como na menção às margens do rio. Não lhe faltava talento, isso é óbvio, mas como em geral acontece quando alguém mira um mestre da estatura de Rosa, há uma entrega a cacoetes levados à exaustão. Os achados se desdobram e o beletrismo domina a monotonia das poucas páginas do livro. A inventividade se torna mecânica.

A história é a de um garoto órfão de mãe. Ele odeia a madrasta por esta ser uma imagem da pobreza em que vive a família e pelo simples fato de ser sua madrasta. O passar do tempo vem simbolizado no modo como a tal madrasta corta o tomate: enquanto os filhos estão na casa paterna, ela o faz em fatias finíssimas; quando alguém sai, a fatia engrossa. Uma versão da multiplicação dos peixes por quem não tem o poder de fazer milagres. Em vez de uma linguagem em ação - o que teria resolvido tudo - temos um esforço em criar frases feitas, as quais nem sempre fogem ao lugar-comum nelas enrustido. Exemplos: "Nascer é abrir-se em feridas", "Não ter resposta é confirmar-se ausente", "A mãe colhia singelos buquês de flores e sepultava aos pés de Nossa Senhora do Socorro", "Sob juros do amor eu me enriquecia", "...um perfume de terra molhada e a alma se fazia definitivamente telúrica", "Na morte, a ausência ganha mais presença", "Suspeitar é não ter certeza".

Já Suzana Montoro usa uma linguagem carregada de intensidade e movimento. Ela prefere ir aos fatos "reais", imaginados e de segunda mão lembrados por uma mulher desde a infância. Temos um romance de formação que, após o sonho burguês, não leva a lugar nenhum, embora a narrativa valha a pena. O tom é direto, quase inaudível, e a história flui de modo, digamos, natural, como se o leitor respirasse com a personagem que conta, imagina e inventa o passado numa aldeia da Hungria, onde se passa a primeira parte.

Suzana não é daquelas que pretendem escrever um romance sobre estrangeiros apenas com a imaginação e alguma pescaria aleatória na web. Seu livro resulta de convívio, depoimentos das "fontes" e uma viagem feita à Hungria para registrar o cenário inaugural dessa ficção. Aí ela capta um momento de grandes mudanças, quando se dormia num país e acordava em outro sem ter saído da cama, pois o território mudava de donos políticos.

O que aconteceu com as "essências"? - a pergunta atravessa o livro de modo subliminar. A antiga língua, símbolo de nacionalidade, torna-se estrangeira no mesmo lugar. A transferência para outras aldeias torna-se apenas um prefácio para a mudança de país e de continente, onde aquelas "essências" menos que provisórias vão se revelar uma tintura ideológica bastante precária. Assim como tudo. O país mais ou menos escolhido seria o Brasil, Estado de São Paulo, onde os imigrantes formariam uma colônia, que se mantém por algum tempo, até se desfazer, dando início a um novo capítulo - quando termina o livro.

O destino da narradora torna-se alegórico. Do mambembe inicial na Europa ela chega ao mambembe de um teatro ambulante, como síntese da instabilidade e do relativo sem remissão. Síntese que tem a ver ainda com o fato de a romancista não pertencer ao grupo focado, o que não a impede de construir sua história de "dentro" e sem perder a mão sempre contida, capaz de aplicar a pincelada certa.

Suzana Montoro tem livros publicados para o público infantojuvenil, como também era o caso de Bartolomeu. Os Hungareses foi, portanto, sua animadora estreia no romance.

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