"Veludo Azul" cristalizou estilo de Lynch

No volume dedicado a VeludoAzul, na Coleção Grandes Filmes, da Rocco e do British FilmInstitute, há mais adjetivos elogiosos ao cult de David Lynch doque em qualquer livro da série. O maior, o melhor, o maisinovador. Veludo Azul, segundo o autor, é tudo isso. Eleinsiste, por exemplo, que Lynch fez o maior filme dacontracultura produzido por Hollywood. Pode ser que toda essaadjetivação seja exagerada, mas Veludo Azul continuaperturbador. Seu lançamento em DVD, pela MGM Home Entertainment(dia 10 nas lojas), prova que a bizarrice de Lynch continuaatual. Há 16 anos ele já se obstinava em mostrar que há algo depodre na América. Nunca desistiu de sua tese e, aliás, só temencontrado elementos para fortalecê-la. Twin Peaks,Estrada Perdida, A Cidade dos Sonhos mudam paraprosseguir na mesma via. Lynch investiga a linguagem, incorporao sonho à realidade e recorre a situações mórbidas e personagensdoentios para manter sua tese sempre aquecida. Em 1986, ele quisfazer de Veludo Azul um filme de quatro horas. Teve decontentar-se com as duas regulamentares. O DVD traz algumascenas excluídas do filme. Você vai gostar de vê-las, mas nãoacrescentam muita coisa à compreensão do que o autor querdizer. Na época, era engraçado definir David Lynch como o"James Stewart de Marte", como faziam os críticos ejornalistas em geral. Isso, na verdade, não quer dizer nada e oproblema é que Lynch sempre foi difícil de enquadrar. É bizarro,sim, e até surreal, mas ninguém se atreveria a rotulá-lo de"surrealista". E também não é um realista, embora se tenhachamado justamente assim, História Real, seu melhor filmenos últimos anos. Lynch talvez não tenha tido seguidores nocinema atual, mas influenciou meio mundo. Isabella Rossellinicanta Blue Velvet em Veludo Azul. Hector Babenco podejurar que não, mas quando Xuxa Lopes canta Foolish Heart emCoração Iluminado a ponte é imediata com Lynch. Isabella Rossellini era a grande novidade de VeludoAzul. Filha de Roberto Rossellini e Ingrid Bergman, carregavao peso de dois nomes míticos da história do cinema. Herdou deleso gosto pela ousadia. Não seriam muitas as atrizes a encarar odesafio de Veludo Azul. O filme possui mais cenas fortes doque qualquer outra produção americana do período. Na maisinquietante, Isabella, como Dorothy Vallens, cantora de uma casanoturna - na qual canta Blue Velvet -, enfrenta o ritualsadomasoquista de um homem meio demente chamado Frank (einterpretado pelo ator cult Dennis Hopper). A cena é radical. Naloucura filmada por Lynch, Dorothy e Frank entregam-se a um jogoperigoso (e incestuoso), pois o homem age ora como filhodepravado, ora como pai despótico. Nada mais lynchiano. Mutilação - A trama de Veludo Azul tem início quandoum rapaz encontra num terreno baldio da cidadezinha de Lumbertonuma orelha decepada. Lumberton parece o lugar mais saudável domundo, a típica representação do sonho americano. Casas brancas,jardins bem cuidados. Aquilo tudo é só aparência. Ao investigara quem pertence a tal orelha, o herói, Jeffrey (Kyle MacLachlan), que possui uma namorada (Laura Dern), chega a Dorothy e Frank.E aí o sonho americano vai para o ralo. Ou, mais exatamente,para o esgoto. Talvez fosse moralismo dos críticos, querendoenquadrar David Lynch como o cineasta que apontava o dedoacusador contra a podridão da América. Talvez não fosserealmente esse o objetivo, mas Veludo Azul prestava-se a elee isso é que era importante. Lynch, em Veludo Azul, filmou acloaca. E fez isso numa produção A de Hollywood (que foi atéindicada para o Oscar). Lynch sempre foi atraído por bizarrices. EmEraserhead, mostrou um gelatinoso bebê-embrião. Em OHomem-Elefante, era um homem deformado, exibido como atraçãoem teatros e feiras. Em Duna, baseado na série cult deficção científica de Frank Herbert, pústulas invadiam as cenas.Em Veludo Azul havia a orelha decepada e o sadomasoquismo deDorothy e Frank. Os outros filmes até que visualizaram menos abizarrice, procurando apresentá-la por meio de um tom, umaatmosfera. As obsessões já existiam antes. Foram cristalizadas apartir desse filme. A câmera invade a orelha decepada. Ouvem-sesons estranhos. A pesquisa sonora faz parte das obsessões deLynch. Veludo Azul não é um filme só para ver, é para ouvir,também. Serviço - Veludo Azul (Blue Velvet). EUA,1986. Direção de David Lynch, com Isabella Rossellini e DennisHopper. DVD da MGM Home Entertainment, dia 10 nas lojas. R$ 41,50

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