Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

Velozes e furiosos

Joe Satriani fala sobre a formação estelar do Chickenfoot e de como músicos tão técnicos ainda podem fazer rock and roll

DIOGO SALLES, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2011 | 03h07

Após serem "expulsos" do Van Halen, Sammy Hagar e Michael Anthony continuaram se encontrando periodicamente para tocar numa casa noturna de propriedade de Hagar em Cabo San Lucas, costa oeste do México (próximo à Califórnia). Lá fizeram diversas jam sessions na Cabo Wabo Cantina com o baterista Chad Smith (Red Hot Chili Peppers) e planejaram montar uma nova banda, que ainda incluiria o guitar hero Joe Satriani. Assim, quase por acaso, nasceu o Chickenfoot. O primeiro e autointitulado álbum de 2009 teve boa recepção de fãs e crítica e a banda ganhou musculatura para continuar. No final de setembro, chegou ao mercado o segundo disco (ironicamente batizado de Chickenfoot III), onde a banda soa ainda mais poderosa - e agora, bem mais entrosada.

Nessa entrevista, Joe Satriani apresenta conceitos sobre o mercado musical, revela detalhes sobre o Chickenfoot e deixa uma promessa aos fãs: convencer Sammy Hagar a vir ao Brasil pela primeira vez.

O primeiro álbum soou como uma grande jam session. Já o novo disco soa como uma evolução. O que aconteceu nesses dois anos juntos?

Você tem um ponto interessante. Quando fizemos o primeiro disco, nós mal nos conhecíamos. Mike e Sammy tiveram uma longa história no Van Halen, mas Chad e eu nunca tínhamos tocado com eles antes. Nós tocamos juntos por dois meses na Cabo Wabo Cantina, então o primeiro álbum foi meio que um retrato de uma banda se formando. Ao compor as músicas, eu estava atirando para todos os lados, pois eu não tinha ideia de que tipo de som os caras queriam fazer. Mas ao avançarmos para esse ano, nós não só tínhamos um disco debaixo do braço, como também tínhamos a experiência de 70 shows em uma turnê. Quando comecei a compor para esse novo álbum, em agosto de 2010, eu estava desenhando toda essa experiência, dos talentos que vi em Chad, Mike e Sammy - e até onde cada um poderia ir. Confiamos uns nos outros e quando um de nós dizia 'alguma vez você já tentou isso?', o outro respondia 'não, mas vou tentar dessa vez'.

Vemos hoje artistas compondo discos no iPad e gravando em estúdios caseiros. O trabalho de produção ficou em segundo plano? Você acha que a música perde nesse aspecto?

Não descarto nenhum método. Se um trabalho é criativo, é criativo. Uma coisa que aprendi no ramo da música é que qualquer um pode ser verdadeiramente artístico. Mas o oposto também pode ocorrer. Você pode chegar a um estúdio com um grupo de músicos e técnicos de som e fazer um disco horrível. Não é o método que garante o sucesso, nada garante. Então, se compor um álbum no iPad é o caminho, vá em frente. No caso do Chickenfoot, é vital tocar junto, pois são quatro caras jogando ideias musicais um em cima do outro.

E tocar ao vivo no estúdio, certo?

Sim, pois nós gravamos ao vivo, não usamos cliques ou sequenciadores. Todos ouvem a música e aprendem a tocá-la. Depois tocamos por meia hora, com todos experimentando diferentes arranjos, e aí gravamos. Isso é o que aparece no produto final, é um processo bastante orgânico para que possamos capturar performances honestas de toda a banda.

Você acha que bandas como Chickenfoot e Them Crooked Vultures combinam um novo modo de conceber as chamadas 'superbandas' e ao mesmo tempo se valem do método antigo de gravar discos?

Sim, e tem o Black Country Communion também. Esse é o método de captar a essência do rock n' roll.

O rock n' roll requer esse método de gravação?

Sim, eu acho que sim.

Como artista solo você tinha de dominar todo o processo na composição de um disco. Como é estar numa banda e dividir as responsabilidades?

Ah, é bem mais tranquilo quando você não tem a obrigação de cuidar de cada aspecto da gravação de um disco. Agendamentos, transporte, comida, horários disponíveis. Como artista solo preciso pensar em cada detalhe, além do que vou tocar e o que compus.

É muito mais fácil jogar um riff na cara do Sammy Hagar e esperar por melodias e refrões, não?

Sim. E é também um pouco insano, pois toda vez que você abre mão de um pouco do controle, você precisa aceitar um pouco do caos. Então nesse caso, abro mão de 3/4 do controle e aceito 3/4 de caos (risos).

Em Chickenfoot III, você desafiou Sammy Hagar a cantar num registro mais baixo e quis dar mais destaque para a voz e o baixo de Michael Anthony. Você parece o homem que fez a banda se superar...

Talvez porque a maioria do material começa comigo escrevendo as canções e mandando-as aos outros.

Mas desta vez vocês opinaram uns sobre os outros...

Sim, o Sammy fez a mesma coisa comigo. Ele queria que eu me soltasse mais, queria ouvir coisas que soassem um pouco menos estruturadas e um pouco mais insanas. Afinal, na turnê, ele me viu tocar toda noite e acho que ele queria um pouco mais dessa insanidade no disco.

Ao contrário dos outros três na banda, você foi o único que não veio do 'party rock'. Nos anos 80, enquanto eles caíam na festa, você trabalhava duro como artista solo. Nesse aspecto, você parece um outsider no Chickenfoot...

Correto. Acho que sempre me senti assim e ainda me sinto. Tenho uma posição engraçada dentro do Chickenfoot, por ser mais sério do que os outros. Eu tendo a me preocupar mais com a música, ter certeza de que está tudo no lugar. Na banda, Sam, Mike e Chad trabalham e se preocupam tanto quanto eu, mas reagem de uma forma diferente.

Em sua opinião, por que a figura do guitar hero perdeu sua relevância no rock? Por que o virtuosismo não é mais tão valorizado como antigamente?

Não sei dizer bem o 'porque', mas não fiquei surpreso. Sou um estudioso da história da música e percebi que tudo o que é recebido com entusiasmo por um tempo acaba esfriando. Toda geração precisa de um novo som, novos ritmos. Isso sempre foi assim e continuará sendo.

Mas você acha que os guitar heroes podem voltar a ter a mesma apreciação?

Talvez, mas não acho que isso seja tão importante. O mais importante sempre é a boa música. Porque mesmo que tenha gente que enlouqueça por causa dos músicos, há sempre boa música vindo de grandes compositores - e essas são as músicas que carregamos década após década. Músicas que duram para sempre. São elas que geram toda essa fascinação pelos músicos. Por outro lado, se você pegar o período do glam rock, você pode achar que a coisa mais importante do mundo são aqueles vocalistas com aquela maquiagem maluca, mas veja como isso se dissipou rápido. Sempre que se inaugura um estilo e ele se torna notável, ele vai acabar se dissipando - e se não houver boas composições por trás desse estilo, ele simplesmente cai no esquecimento. O rock durou mais porque há muitos bons compositores. Ele não está mais na TV o tempo todo como antigamente, mas ainda é o gênero que puxa o catálogo de vendas.

Desde o início de sua carreira você tentou montar uma banda, mas o destino sempre o empurrou para a carreira solo. Aí apareceu o Chickenfoot. Seria um sonho da juventude realizado?

Sim, claro. A musicalidade dessa banda é algo fantástico. Eu nunca imaginei que a banda onde eu tocaria teria esses ingredientes, entende? Nós somos muito diferentes uns dos outros. Não conseguiria imaginar o baixista do Van Halen e o baterista do Chili Peppers na mesma banda. Para mim, isso soaria ridículo (risos). E não vejo como eu poderia tocar na mesma banda do Sammy Hagar. Mas quando nos conhecemos, tínhamos tantas conexões musicais que isso transpareceu nos discos que fizemos. Compartilhamos muitas influências no blues, no R&B e no rock dos primórdios. É aí que criamos nossa conexão musical. Ele é o rei do party rock no palco e eu sou o oposto disso. Somos diferentes nos mais variados níveis, mas no nível mais importante - que é o musical - somos muito parecidos.

A inevitável pergunta: vocês planejam trazer a turnê do Chickenfoot para a América do Sul dessa vez?

Sim, eu espero que sim. Tenho dito ao Sammy que ele precisa conhecer o Brasil e a América do Sul...

Sammy é o único da banda que nunca esteve aqui.

Eu sei. E isso não faz absolutamente nenhum sentido! Vivo dizendo a ele como os fãs são incríveis e como ele vai amar o Brasil. Então eu coloquei isso como uma busca pessoal: levar Sammy Hagar à América do Sul.

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