Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Velhos hábitos

Esta o Pero Vaz de Caminha não contou.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2014 | 02h06

Os portugueses tiveram alguma dificuldade para se comunicar com os indígenas, na sua chegada ao Brasil. Um dos comentários ouvidos na praia, logo depois do descobrimento, foi:

- Ou estes gajos não sabem falar português ou estiveram no dentista há pouco e ainda sentem os efeitos da anestesia, pá. Não se percebe nada do que dizem!

Tenta daqui, tenta dali e finalmente se entenderam. Cabral, comandante da expedição portuguesa, deveria falar com o cacique Tamosaí, aparentemente o comandante dos índios. A conversa - feita mais com mímica e linguagem de surdo-mudo do que com palavras - foi mais ou menos assim:

Tamosaí - O que homens esquisitos, brancos e com barba, querem?

Cabral - Tudo.

Tamosaí - Como, tudo?

Cabral - Tudo. Do Oiapoque ao Chuí. E então?

Tamosaí - Hmmm. OK. Mas antes...

E Tamosaí estendeu a mão com a palma virada para cima e disse:

- Molha.

- Ai, Jesus - suspirou Cabral. - Começou...

A história da propina no Brasil talvez não seja tão antiga, mas o costume já tem uma longa biografia. Assim como o poder das empreiteiras, cuja origem é difícil de localizar no tempo. Talvez tenha começado com o nosso protoempreendedor Barão de Mauá. Certamente se consolidou com o furor desenvolvimentista da era Juscelino. Novidade mesmo é as empreiteiras obrigadas a explicar seus velhos hábitos, nunca dantes questionados, e seus diretores estarem dormindo em colchões no duro chão de uma cadeia. No fim, quem tem razão para festejar é o senador Pedro Simon. Há anos sua insistência que os corruptores sejam incluídos na investigação e punição da corrupção é ignorada no Congresso. No fim da sua vida pública, veio o desagravo.

Papo vovô - 1. Nossa neta de 6 anos chegou em casa com uma novidade: havia um bicicopata na sua escola. Depois, tudo se esclareceu, era só uma palavra que ela tinha ouvido e guardado. Mas por momentos nos preocupamos com a possibilidade de haver, entre os colegas da Lucinda, um psicopata de bicicleta.

Papo vovô - 2. Esta é de um neto alheio, filho de um amigo e grande músico, Luiz Mauro Filho. Também de 6 anos. Sua perfeita definição de sonho: sonho é uma coisa que quando a gente acorda diz: "Ué...".

Tudo o que sabemos sobre:
Luis Fernando Verissimocrônica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.