Velhos e memoráveis repertórios

Como dói não ter mais o programa do primeiro concerto a que assisti na vida, quando tinha 12 anos

, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Como todo frequentador de teatros, gosto de guardar os programas dos espetáculos que mais me impressionam. Também pela importância do próprio teatro. A gente não se desfaz de um programa do Musikverein de Viena, do Mariinsky de S.Petersburgo, seja lá o que tenhamos assistido. Pois bem, num dia muito louco, só porque eu tinha mudado para um apartamento pequeno, e de vida, também, resolvi fazer uma limpeza e joguei fora todos os programas que guardara até aquele momento, incluindo um com o autógrafo de Johnny Hodges, colhido na Sala Pleyel de Paris, num concerto da orquestra de Duke Ellington. Hodges fumava um cigarro, durante o intervalo, no fundo do corredor ao lado dos camarotes, e eu me aproximei, estendi o programa, não falei nada. Quase sem me olhar, ele assinou, me devolveu. E eu pensei: pode me tratar com essa displicência, meu caro, você toca bem demais!

Tenho agora nova coleção, mas não é a mesma coisa. Como dói não ter mais o programa do primeiro concerto que assisti na vida, nos meus 12 anos: o mitológico Alexander Brailowski tocando no Cine Theatro Casino, aqui em Santos, num domingo pela manhã. Minha mãe tinha verdadeira paixão pela música e me levava a todos os concertos. Gostávamos muito de ouvir à noite as rádios culturais, principalmente a Rádio Municipal de Buenos Aires e o Serviço Oficial de Difusão Rádio Elétrica de Montevideo , o famoso SODRE. E, posteriormente, o histórico Música dos Mestres, da Rádio Gazeta, dirigido pela Vera Janacópoulos. Foi a minha era do rádio, minha formação musical ouvindo os extraordinários artistas dessa época.

Em Santos pegávamos bem as estações radiofônicas estrangeiras próximas, em ondas largas. Às vezes a onda sonora se distanciava lentamente, a música soava bem ao longe, quase desaparecia, depois voltava, aos poucos, o que nos transportava a um estado de sonho, de poesia, embalados por esse movimento docemente misterioso, espacial. Verdadeira música das esferas. Anos depois eu iria ver pessoalmente alguns desses artistas maravilhosos que encantaram minha juventude, via rádio. Artistas dos quais ninguém mais fala, como os violinistas Jascha Heifetz e Fritz Kreisler, este último também delicioso compositor num estilo vienense mais leve. Os pianistas Edwin Fischer, Arthur Schnabel, quem ainda se lembra destas maravilhas? Esses velhos artistas viveram mais próximos do século 19, alguns chegaram a estudar com algum aluno de Liszt. Sabiam, portanto, como Liszt e Chopin interpretavam. Ninguém, hoje, toca como eles. Predomina a velocidade, como numa competição esportiva.

Fins dos anos 1940, numa noite gelada em São Paulo, pude ouvir no Teatro Municipal o extraordinário Wilhelm Backhaus. Que emoção, sua abertura do programa com o Concerto Italiano de Bach. Não se toca mais assim, com tal precisão e limpidez. Alguns anos depois, no mesmo teatro, Wilhelm Kempf, outro gigante. Ao lado de Backhaus e Schnabel, são os três maiores intérpretes de Beethoven e Brahms. E sempre ali no Municipal, o então muito jovem violinista Isaac Stern, o Quarteto Húngaro, em A Morte e a Donzela, com o violoncelista olhando para mim e meu amigo Gastão, na primeira fila, sabendo o quanto estávamos fascinados pela sua interpretação.

Quatro vezes Walter Gieseking, a última no Teatro Municipal do Rio, quando subimos ao palco e ficamos ao redor do piano, enquanto ele tocava a Suíte Bergamasque, logo ele, o maior intérprete de Debussy. Lily Kraus, no Teatro Cultura Artística, a pianista que me introduziu a Bartok e me arrebatou com sua apaixonada Kreutzer, de Beethoven. Todos eles, artistas que eu escutara nas velhas emissoras de rádio. E minha coleção de programas e autógrafos crescia, cada vez mais rica.

Mas me faltou ver o violinista Adolf Busch, também regente, e seu genro, o admirável pianista Rudolf Serkin. Com sua lendária orquestra de câmara, Busch deixou uma impressionante interpretação, lentíssima, daquela famosa ária de Bach, da Suíte n.3, que hoje todo mundo interpreta tão mal, tão rápido. Muitos anos atrás meu irmão Erasmo, professor emérito da USP, a trabalho na Itália, ouviu Busch em Nápoles, e pediu um autógrafo, não para ele, mas para mim, explicando que eu o admirava muito, que pretendia ser compositor, um dia. Busch me fez no programa uma bela e longa dedicatória, além do autógrafo. E o programa, onde foi parar? Na lata do lixo, junto com aqueles outros que também joguei fora, uma decisão inexplicável. Les choses de la vie!C

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.