''Velhinhos da vila'' arrepiam na Fradique

Fãs lotam livraria para ouvir Crumb e Shelton, sumo sacerdotes das HQs

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

O bom e o mau. Crumb, de chapéu preto, e Shelton, chapéu branco, na mesa da livraria lotada      

 

 

 

 

Meninos de óculos de fundo de garrafa com espinhas, cabeludos que pareciam ter caminhado desde Woodstock até ali, meninas de boina com ar intelectual, barbudinhos de piercing nas orelhas, artistas, curiosos, nerds, senhoras com jeito uspiano, senhores com ar unicampiano. E até um bebê de menos de dois meses de idade.

Nos anos 60, seus gibis "proibidos" circulavam em conta-gotas, de mão em mão, em ambientes restritos, mas a ressonância daquilo hoje impressiona. Os sumo sacerdotes dos quadrinhos underground, Robert Crumb e Gilbert Shelton, arrastaram uma pequena multidão até uma livraria na Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena, na terça-feira à noite. Escadarias, estantes, corredores, chão e telão na cafeteria: mais de 500 pessoas num espaço onde caberiam, talvez, umas 300. A fila chegava à rua. Os cartunistas falaram durante mais de uma hora e depois autografaram para 40 pessoas (que tinham retirado senhas com antecedência).

"Isto não é lugar para criança", advertiu Robert Crumb, de 67 anos (ele fará 68 daqui a 19 dias), ao chegar para o encontro e ouvir um choro de bebê. Mas o primeiro encontro de Crumb com seus fãs reais foi extremamente proveitoso, do ponto de vista jornalístico: bem-informados, os admiradores faziam perguntas desafiadoras, e Crumb e Shelton, relaxados em seu ambiente natural, não se fizeram de rogados e falaram sobre tudo.

Crumb comparou São Paulo a Los Angeles, "loucas cidades modernas distópicas (o contrário de utópicas)", disse que estava surpreso que os fãs aqui não fossem todos loucos ("Me falaram de gangues e assassinatos no Rio e em São Paulo, mas, na verdade, o que mais me surpreendeu foi a doçura de vocês") e disse que não consegue entender por que é tão adorado ao redor do mundo. "Minhas HQs são inapropriadas e pervertidas. Não consigo entender (por que gostam de mim). Fatalmente, algum dia alguém vai levantar e me dar um tiro."

Robert Crumb causou furor ao se declarar favorável à legalização das drogas. "É insano criminalizar isso", afirmou. "Em 1920, o álcool era ilegal nos Estados Unidos, e isso só fez aumentar a criminalidade. Não entendo por que não aprenderam com a História". Crumb fez uso de LSD e maconha nos anos 1960 (considera até que teve boa experiência com o ácido, mas não recomenda a ninguém, considera um "equivalente do suicídio"), e diz preferir que as drogas hoje sejam controladas, mas não proibidas. Num momento em que o estilo Plínio de Arruda Sampaio recebe adesões, Crumb colheu aplausos entusiasmados ao se declarar socialista: "O que não consigo entender é como alguém não é socialista."

Respondendo a uma questão do Estado, sobre se teve problemas com o FBI e a polícia norte-americana nos anos 1960, como boa parte dos artistas da contracultura (John Lennon, por exemplo, foi fichado e seguido quando viveu nos Estados Unidos), Crumb revelou que foi observado por informantes, mas teve poucos problemas reais. Implicavam no máximo com suas declarações de rendimentos, contou, e até chegaram a retirar dinheiro de sua conta bancária. Mas ele também foi investigado quando fez um cartum no qual uma personagem jogava bombas no Rockefeller Center. "Nos Estados Unidos, eles não gostam daquilo que possa incitar à violência."

Segundo o cartunista, havia também um grande respeito social pelos artistas, naquela época, e isso o salvava em algumas ocasiões, como quando publicava quadrinhos com conteúdo sexual explícito. "A polícia vinha. Mas levava o vendedor de gibis, nunca o artista." Disse que, estilisticamente, concorda que sua arte tem relação com a herança gráfica dos anos 20, assim como seu gosto musical. "Para mim, os anos 20 foram uma era de ouro. Mas é o meu gosto, é apenas velharia."

Já Gilbert Shelton, celebrado autor dos Freak Brothers, considera que, por ter vivido naquela época em São Francisco, meca dos hippies, usufruiu uma tolerância maior em relação aos excessos. "A polícia me parava, mas o máximo que faziam eram me esvaziar os bolsos, tomar minha maconha e me encaminhar para o distrito", brincou. Shelton ironizou quando alguém lhe perguntou sobre como eles, os cartunistas, mantinham o controle de suas obras quando as negociavam para o cinema (acaba de vender os direitos dos Freak Brothers): "Nos Estados Unidos, os produtores nos dão um monte de dinheiro e dizem: Vão embora!"

Um fã quis saber, à queima-roupa, se era verdade que Crumb tinha trocado um sketchbook (caderno de esboço) por um apartamento no Sul da França, onde vive. O cartunista o corrigiu: "Na verdade, foram seis sketchbooks." Afirmou, entretanto, que não mudou para a França por decisão própria. "Foi ideia da minha mulher." E, embora considere que os Estados Unidos sejam um país "fascista corporativo", tem amigos lá e não rejeita sua pátria. Outro fã perguntou se a França não seria também fascista e corporativa. "Comparada aos EUA, a França é um carrinho de cachorro-quente", disse, antes de fazer piada: "Um amigo me advertiu que o Sul da França é um lugar aonde as pessoas vão para morrer."

FMI. O autor de Fritz the Cat e Mr. Natural saudou a forma como o Brasil soube lidar com a recente crise econômica mundial, ao contrário dos Estados Unidos e da Europa, que enfrentam ainda problemas. "O Brasil se livrou do FMI. Quanto menos próximos dos Estados Unidos, melhor para vocês", aconselhou.

Havia ordem na livraria, apesar do aperto. Um maluco gritou lá de cima do mezanino perguntando qual seria a personalidade morta que Crumb elegeria para tomar uma cerveja consigo. "Não tomo cerveja com gente morta. Na verdade, nem tomo cerveja", respondeu. Só uma vez, em tom de galhofa, o cartunista ordenou que um fã dominasse sua excitação: "Shutupfuckoff!", rosnou, e o menino riu.

Os fãs se esmeraram nos presentes. Crumb recebeu diversos discos raros de vinil de 78 rotações por minuto. O cartunista Chico Caruso trouxe três pacotes cheios de álbuns. "Parece Natal", alegrou-se o artista. Abria todos ali mesmo na mesa, com avidez. Ao receber um vinil contendo uma gravação de Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, Crumb cantarolou: "O Tico-Ticoooo lá. Dabadabadabá!" Mas fez careta e rejeitou um outro disco, colocando-o de lado. O vinil continha uma gravação de Bing Crosby. "Não é bom, não é bom", repetiu. Ele disse que parou de tocar banjo em apresentações públicas (costumava se apresentar na França com o grupo Cheap Suit Serenaders) e contou que agora só toca o instrumento para seu próprio prazer.

Mr. Freak

GILBERT SHELTON

CARTUNISTA

"Não sei onde os Freak Brothers viveriam hoje. Eu mesmo não consegui entrar no séc. 21, ainda leio literatura do século passado."

"Eu usava drogas não prescritas, como peyote. Não eram ilegais. Sim, fui demitido por isso. Usava e sentia dores no estômago. Quando saía tudo, eu gostava das cores."

"Não gosto de super-heróis, mas bem que, de vez em quando, tenho vontade de arrancar um braço de alguém."

"Drogas na Bíblia? Talvez. Matusalém dizendo por aí que tinha 900 anos, podia até ser porque ele estava sob efeito de alguma droga."

"Vivendo em Paris, me sinto preso numa armadilha."

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