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Velhas estátuas e velhas ideias

A supremacia branca é uma imbecilidade datada que ainda pode acionar um carro assassino

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

10 de setembro de 2017 | 02h00

Duas estátuas e um atropelamento: o episódio dos conflitos em Charlottesville (Virgínia, EUA) impactou a opinião pública mundial. Como esculturas possuem esse poder? 

A Guerra Civil dos EUA opôs dois lados e as obras eram símbolos de uma face apenas. Augusto Comte achava que os mortos governariam os vivos cada vez mais. No caso em questão, a memória dos que partiram agita a convicção dos que ainda estão por aqui. O tema merece aprofundamento.

O ato de construir uma estátua ou mandar retirá-la/destruí-la revela uma guerra de memórias. Ao erigir um monumento, celebro algo. Ao removê-lo, também. Concentremo-nos, por ora, no segundo impulso. O iconoclasmo (movimento de destruir imagens e símbolos) é uma constante em História. Sempre queremos redefinir a memória de um passado. O alvo clássico do movimento é religioso. Cristãos iconoclastas atacavam ícones no mundo bizantino e defendiam a ideia de que fazer imagens era um pecado. Islâmicos conquistaram o Egito e atacaram antigas imagens de deuses e faraós, danificando o rosto em particular. O dominicano Savonarola fez muitas “fogueiras de vaidades” em Florença, alimentando as chamas com pinturas do Renascimento que ele reputava como sacrílego. Pouco depois, o corpo do zeloso frade abasteceria o fogo da sua execução. Calvinistas queimaram imagens e instrumentos musicais em Genebra. Hernán Cortés, conquistador do México, quebrou deuses astecas. Atacar obras religiosas de um grupo distinto ao meu parece ser um imperativo categórico histórico.

O movimento também envolve política. Jacobinos derrubaram a estátua de Luís XV no local que hoje conhecemos como Place de la Concorde, em Paris. Também foram destruídos túmulos reais na abadia de Saint Denis durante a Revolução Francesa. Até efígies de reis de Israel em frente à catedral de Notre Dame foram decapitadas. A derrubada da imagem do rei inglês George III, em Nova York, é um dos episódios da independência dos EUA. A implosão de igrejas ortodoxas foi uma prática do governo bolchevique na URSS. Terminado o poder socialista, foi a vez de estátuas de Lenin serem removidas de lugares públicos. Bustos de Getúlio Vargas foram retirados ao fim do Estado Novo e alinhados nas ruas. O ataque à imagem de Saddam Hussein foi o episódio mais simbólico do fim da ditadura no Iraque. A queda de qualquer regime arrasta muitas imagens. 

Temos, além do religioso/político, o iconoclasmo estético/político. Durante a Comuna de Paris, em 1871, um grupo de communards derrubou a estátua (e a imensa coluna que a sustentava) que celebra Napoleão Bonaparte na Place Vendôme. Do grupo, participava o pintor realista Gustave Courbet que, depois da experiência, foi obrigado a fugir. A coluna, como sabemos, foi reerguida. Para nosso horror simbólico, sabemos que também foi discutida a hipótese do incêndio do Museu do Louvre. 

Bem recente e próximo: o secretário estadual do Meio Ambiente, Ricardo Salles (membro do Endireita Brasil), determinou a retirada do busto de Carlos Lamarca (1937-1971) do Parque Estadual do Rio Turvo. Ainda existe uma luta pela memória em curso. 

Assim, estimado leitor e querida leitora: nossa história é uma sucessão de construção e destruição de imagens. Parecemos a noiva traída ou o namorado raivoso que queima/deleta fotos do antigo amado ou da ex para materializar, simbolicamente, o fim da relação. Trata-se de um vodu interessante: elimino a memória no impulso de negar o que vivi. Queimamos nossa raiva de ter tido aquela história, impossibilitados pelo bom senso ou pelo medo de queimar a própria pessoa. Destruir o que não nos pertence mais é uma forma de sublimar a raiva, como a ordem, felizmente não cumprida, emitida por Hitler para acabar com Paris na iminência da derrota nazista. 

Voltemos ao começo. Quando um presidente xenófobo e sem controle verbal sobe ao poder, a mensagem é clara. Está autorizada a temporada de revitalizar o medo e a segregação. Os discursos de Trump são como alimento para os Gremlins. Com a franja de Drácula reluzindo ao fulvo sol ariano, cada pequeno vampiro se sente empoderado e autorizado. 

As estátuas viraram o epicentro de uma nova guerra civil e de um iconoclasmo feroz. O racista é como um terrorista fundamentalista: é um loser da história. Tragédia: losers matam. Observe-se a fúria assassina do jovem racista que joga o carro em uma multidão: tenta passar por cima daquele mundo, daquelas vozes, daqueles corpos e da diversidade que perturba suas vísceras raivosas. Ato idêntico ao de outros terroristas mundo afora, como vimos em Barcelona, Alemanha ou França. 

A supremacia branca é uma imbecilidade datada que ainda pode acionar um carro assassino. Uma parte do problema está na Virgínia. Outra está nos que interpretam que o adjetivo da expressão Casa Branca tenha um significado mais amplo. 

Muito obrigado a você, leitora, e a você, leitor. Chegamos à coluna de número cem. Tem sido uma experiência única. Bom domingo para todos vocês.

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