VELHA NOVA PARCERIA

Francis Hime e Guinga se conhecem há 40 anos, mas só agora gravam CD

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h08

A parceria entre os compositores Francis Hime e Guinga, ensaiada há quatro décadas, foi finalmente concretizada com o CD Francis e Guinga (Biscoito Fino), que será lançado na segunda-feira, às 21 horas, no Teatro Net Rio (Rua Siqueira Campos, 143, Rio de Janeiro). É um desses encontros que definem uma vida, como foi o de Michel Legrand com Jacques Demy, para falar do mais famoso autor de trilhas sonoras da França, ambos criadores do primeiro filme inteiramente cantado (diálogos, inclusive) da história do cinema, Les Parapluies de Cherbourg (Os Guarda-Chuvas do Amor, 1964). Legrand é velho amigo de Guinga. Fez para ele os arranjos da valsa Passos e Assovios, parceria sua com Paulo César Pinheiro. Guinga canta Amour, Amour ao telefone ("L'amour se porte autour du cou, le coeur est fou"), em homenagem a um dos grandes musicais da dupla Legrand/Demy, Peau d'Âne (Pele de Asno). Canta enquanto espera uma brecha na disputada agenda de Francis para propor a ele uma incursão no gênero.

"Já esperei 40 anos por essa parceria até tomar coragem e propor há dois anos a gravação do disco no ônibus do aeroporto", conta Guinga, não descartando a possibilidade de um musical na esteira. "Ele vinha aqui em casa, falávamos sobre o Vasco, nosso time, mas nunca sobre gravações, o que acabou acontecendo na ponte aérea", lembra Francis. Nos próximos meses, pelo menos, o projeto de uma nova parceria vai ter de esperar. Depois do show de lançamento de Francis e Guinga, o primeiro segue para uma turnê europeia com a mulher Olívia Hime, para divulgar o álbum ao vivo que fizeram juntos, Almamúsica. Francis ainda espera patrocínio para sua Ópera do Futebol, que tem libreto de Silvana Gontijo e conta uma história de rivalidade entre dois irmãos futebolistas - ambicioso projeto em quatro atos que deve estrear só em 2014. Antes, no fim deste ano, seu Concerto para Violino e Orquestra será executado pela Osesp com regência de Isaac Karabtchevsky, tendo Cláudio Cruz como solista.

Na área erudita, Francis concluiu um concerto para harpa e orquestra, pensado para Cristina Braga, e vai escrever um outro para clarinete, que deve ter Cristiano Alves como solista. Com tantos projetos, ele não descarta, contudo, uma nova parceria com Guinga. "De vez em quando a gente pensa em fazer uma peça sinfônica e talvez isso aconteça", adianta Francis. Guinga fica lisonjeado, mas, modesto, diz que tem limitações na área, apesar de familiarizado com o repertório clássico - ele lista uma dezena de preferidos que vai de Villa-Lobos a Scriabin, passando por Fauré, Mahler, Charles Ives e Samuel Barber. Guinga não teve aprendizado formal na área erudita. É autodidata, mas tem uma memória auditiva tão incomum que é capaz de lembrar nota por nota temas que todos esqueceram. E começa a cantar: "One heart to trade or sell, one heart, an empty shell...", tema principal de O Homem do Prego (The Pawnbroker), composto por Quincy Jones em 1964 para o filme de Sidney Lumet.

É um privilégio ouvi-lo cantar ao telefone, mas qual a razão de ter usado sua voz apenas em 1993, quando gravou Delírio Carioca? "Tenho uma voz rouca, como todos na minha família", justifica, considerando-se mais violonista e compositor que cantor. Na primeira função, ele estreou ao lado de Cartola. Como autor, foi gravado por todo mundo que importa na MPB, de Elis Regina (Bolero de Satã) a Milton Nascimento, tendo como parceiros de composição Chico Buarque, Aldir Blanc e uma lista infindável de nomes. Em Francis e Guinga, ele acrescenta mais um a ela, o de Olívia Hime, que assina a faixa de abertura, A Ver Navios, com o marido e Guinga. O repertório do disco mistura composições dos dois autores, buscando semelhanças temáticas e melódicas. Assim, Passaredo (Francis e Chico Buarque) cruza com Nem Mais Um Pio (Guinga e Sérgio Natureza), duas peças que pregam a preservação ambiental.

Guinga diz que a letra de Olívia para A Ver Navios traduz perfeitamente o clima que o inspirou a escrever a primeira parte da melodia. "Estava na Itália e o Mediterrâneo me fez sentir saudade do Brasil, o que deu nessa música meio caymminiana". Olivia fala da "noite que surge do fundo do mar" para anunciar a "moura canção" numa linguagem poética que lembra o melhor de Manuel Bandeira.

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