Velha Guarda da Portela vira tema de documentário

Marisa Monte e Paulinho da Viola discorrem em uma bela tarde de uma quinta-feira sobre a Portela e sua Velha Guarda. Nenhuma surpresa, já que ambos têm histórias antigas com a bandeira azul e branca. A escola foi fundada em 1923 e Paulinho trouxe à tona a Velha Guarda, ao reunir membros históricos da escola para gravar um disco, em 1970. Foi daí que surgiu a Velha Guarda Show, que passou a ter Paulinho como seu padrinho. Já a diva da MPB traz ligação familiar com a escola: passou a infância vendo seu pai, Carlos Monte, como diretor da agremiação.Paulinho completou 65 anos em novembro; Marisa fez 40 em julho. No encontro de gerações e talentos, os dois admiram o samba que tanto conhecem e debatem sobre a poética das antigas e novas canções. Músicas essas criadas por veteranos nomes portelenses, como Manacéa, Argemiro Patrocínio e Monarco, figuras sagradas de Oswaldo Cruz, um longínquo bairro da zona norte carioca, que fica ao lado de Madureira, onde se concentra a tradicional escola da águia azul e branca.Em Oswaldo Cruz, que foi zona rural e o trem ainda é meio de acesso, o cenário preserva um lado rústico e as pequenas casas abrigam diamantes do samba - quase um recanto perdido no tempo. A conversa entre Marisa e Paulinho não é mero acaso. Trata-se da última tomada gravada, que conduzirá à narrativa de algumas cenas do novo longa dos diretores Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, em parceria com as produtoras Conspiração Filmes e Monte Criação e Produção - esta, de Marisa Monte.A previsão é de que o filme seja finalizado até abril de 2008, mês em que prevêem colocá-lo em cartaz nas telonas do circuito brasileiro. Em entrevista à Agência Estado, Carolina disse já ter feito as últimas gravações. A proposta, afirma a cineasta, não é realizar um documentário biográfico da Velha Guarda. É mais do que isso. A intenção é preservar a memória deste samba.Sem revelar valores de orçamento e sem título definido, Carolina diz estar há três meses no processo de edição do longa. Com cerca de 200 horas de gravação, hoje eles já estão com um material bruto em torno de três horas. Os cortes, diz ela, são de "cortar os pulsos". No mundo de Oswaldo Cruz, celeiro de pessoas comuns onde o samba nasce espontaneamente e com uma qualidade ímpar, terra de tantos bambas, o samba de fato não poderia - nem deve - morrer.

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