''Vejo minha obra como otimista''

Grande nome da pintura americana, Alex Katz estreia em São Paulo

Maria Hirszman, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

Chega a parecer estranho que Alex Katz, apontado como um dos grandes nomes da pintura norte-americana e com mais de 200 exposições individuais e 500 coletivas no currículo, tenha esperado mais de meio século para fazer sua estreia no Brasil. O artista, que atribui essa longa ausência ao fato de sua obra ser considerada "muito americana", acredita que as coisas acontecem em seu devido tempo. Reunindo 24 obras gráficas, a seleção feita por Katz e seu filho Vincent - que assina a curadoria da mostra, é modelo de vários dos retratos apresentados e publica uma série de poemas no catálogo da exposição - pode ser vista pelo público a partir de hoje na Luciana Brito Galeria. Mesmo enxuta, a mostra tem um caráter de retrospectiva, contemplando obras desde 1968 até nossos dias. Estão lá presentes os principais temas (retratos, paisagens) e evidenciados o caráter ao mesmo tempo experimental e elaborado de sua produção.

A crítica comumente aponta que seu trabalho se situa em campos opostos, entre a presença e a ausência, realidade e artificialismo, familiaridade (usando sua família e amigos como modelos) e distância (suas paisagens são marcadas pela neutralidade). Você acredita que essas tensões estão na origem de uma certa melancolia, do clima nostálgico que sentimos em alguns de seus trabalhos?

Algumas vezes me surpreendo ao ver como as pessoas percebem o meu trabalho. Acho que minhas pinturas são líricas, sempre as vejo como algo otimistas. Mas pessoas diferentes veem coisas diferentes. A visão de um lago vazio, sem ninguém, pode parecer melancólico para alguns, mas para mim é uma imagem poderosa. Na verdade estou interessado em capturar a luz particular de um determinado momento do dia. Se consigo isso, as pessoas farão suas próprias associações a partir daí.

Pode-se considerar essa mostra como uma retrospectiva de sua carreira?

Mesmo sendo em primeiro lugar um pintor, é possível ter uma visão bastante ampla de meu trabalho por meio das gravuras exibidas na Galeria Luciana Brito. A gravura é uma parte importante de minha produção e muitas vezes uma última visão refinada de uma mesma imagem. Na minha obra gráfica, a motivação fundamental é a experimentação no processo. Quero sempre experimentar algo novo a cada vez.

Você acredita na existência de uma "escola americana de pintura"? É possível identificar nos escritos sobre seu trabalho um leque amplo de referências, indo de Matisse, a Pollock e Hopper. Como você explica essa diversidade?

A pintura deve indicar o lugar em que foi feita. Alguns pintores trafegam por outras culturas, outros não. Eu diria que meu trabalho eventualmente faz esse transcurso. Realmente esses nomes que você citou tem relevância. Mas há muitas outras referências em meu trabalho: cartazes, TV, cinema, Utamaro, Thutmose, Monet, Manet, Cézanne, Bonnard. E um monte de pintores mais contemporâneos, como Kline e Rothko. Na verdade trata-se de uma base realmente ampla.

Você disse certa vez que gostaria de pintar mais rápido que o pensamento. Qual a relação entre esse comentário e seu uso de enquadramentos e cortes pouco usuais? Há algo bastante cinematográfico em seu trabalho não?

Eu queria tentar fazer uma nova pintura num contexto em que a visão das pessoas está dominada pela TV, pelos filmes e pela fotografia. Meus estudos pictóricos iniciais vêm da parte não consciente do cérebro. Se pinto tão rápido quando penso, então é o inconsciente que realiza a pintura. Isso me liberta da rigidez do meu passado. A visão é algo cultural, que muda a cada 20 ou 30 anos. Para ver algo novo, é necessário sair e trabalhar em cima disso. A visualidade de uma cultura diz às pessoas como ver e a maioria vê o mundo através de um monitor de TV; eles aceitam aquilo como realidade. No entanto, não existe uma realidade absoluta. A realidade é variável e continua mudando. E o que eu estou tentando é dominar a visão das pessoas, fazê-los ver algo diferente; estou tentando dizer às pessoas como olhar para as coisas.

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