Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Veja só o que você perdeu

Conheça os generosos planos do cronista para a Mega-Sena que não veio

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2018 | 02h00

A esta altura dos acontecimentos, passadas já duas semanas, posso finalmente revelar qual era a minha principal resolução para 2018: roer, em proveito próprio e alheio, a bagatela de 18 milhões de reais. Melhor que isso, convenhamos, só abrir a porta do apartamento, no Dia de Natal, e dar de cara com 51 milhões trazidos no trenó do Papai Geddel.

Sucede, porém, que na virada do ano nenhuma das bolinhas nas quais investi 10,50 reais quis fazer-me a gentileza de pingar na cuia da Caixa Econômica Federal. Repito: nenhuma delas, e eram 18, quis abandonar, em meu e vosso favor, o útero daquele globo giratório. Revoltante. 

Em face do acontecido, volto a propor que se institua, paralela à Mega, uma “aposta oposta”, a Microsena, destinada a premiar a pontaria rombuda de quem, dispondo de vários tiros, consegue operar o prodígio de não acertar nenhum. Sim, criemos algo semelhante àquilo que, nas provas de matemática em meu colégio, teria não apenas poupado um futuro cronista de ribombantes reprovações, como garantido a ele o topo do pódio dos que, esnobando a nota 10, pareciam esmerar-se numa batalha pelo zero.

Se dependesse de boas intenções, não de bolinhas a girar desmioladas, certamente teria vindo a mim um dos 17 lotes de 18 milhões da Mega Sena da Virada. Gosto de 18 milhões de reais, e gostaria ainda mais se pudesse tê-los na minha rarefeita conta bancária. E faria, acredite, nobre e desprendido uso da fortuna. Já não cogito, como no passado, atitudes deploráveis como a compra de horário para desancar desafetos na televisão. Só coisas do Bem.

Veja o que também você acaba de perder no maldito sorteio da virada. Parte da bufunfa seria posta à disposição de malcasados que aceitassem renunciar ao vício das brigas e ressentimentos que os mantêm unidos. Partiria de mim a iniciativa. “Tomem isto aqui”, diria eu, magnânimo, estendendo dois obesos cheques, “e vá cada um cuidar da sua vida.”

Sabemos que há separações que não dão certo, mas nem por isso eventuais recaídas conjugais seriam punidas com a obrigação de devolver o Fundo de Liquidação Conjugal - desde que, a meu critério, uma inequívoca e inoxidável Lua de Mel se pusesse a brilhar sobre os reincidentes.

Outro quinhão da fortuna seria destinado ao financiamento de análise ou terapia para aqueles e aquelas que, por falta de dinheiro ou fé em Freud, ainda não se estenderam no divã. Para os recalcitrantes, poderia haver condução coercitiva, em ambulância, eventualmente com a sirene ligada. “Não me leve a mal, me leve a bem”, diria este desprendido, “mas está aí o pessoal que vai levar você.” 

Grupos inteiros poderiam ser assim removidos de uma mesa de boteco, para mencionar apenas um ambiente em que, destravadas pelo álcool, perebas psicológicas afloram com facilidade. Quadros individuais mais clamorosos poderiam requerer modalidade especial de terapia de grupo, aquela em que para cada paciente houvesse um grupo de terapeutas.

Também sobre outras frentes haveria de verter a minha generosidade. Olheiros iriam às ruas com a missão de garimpar transeuntes, de ambos os sexos ou mais, cujo visual clamasse por salão de beleza ou barbearia - ou mesmo clínica de cirurgia plástica, circunstância na qual a delicadeza recomendaria lançar mão da sabedoria de Millôr Fernandes: “Por favor, não se alarme, mas precisamos operá-lo(a) imediatamente!”. Tudo isso, seja dito, sem discriminação socioeconômica; numa cidade como São Paulo, o garimpo de imperfeições e feiuras se daria tanto na plebeia 25 de Março como na Oscar Freire, cravejada de pessoas em situação de condomínio fechado.

Exemplo cada vez mais raro de ser humano que não estampou desenho, signo ou frase na superfície corporal, este cronista ainda assim estaria disposto a bancar estampagem em pele alheia. Com a condição, porém, de que interessados e interessadas se comprometessem a só fazê-lo depois de elaborado - sempre a minhas expensas - um abrangente e detalhado Plano Diretor de

Ocupação Cutânea, de forma a prevenir o espetáculo confrangedor com que a cada passo nos deparamos, de corpos tatuados ao acaso por agulhas de incerta perícia ou minguados dotes artísticos, ao azar dos buracos de Tattoo que em cada esquina oferecem desserviços.

Nesse departamento, previ também uma oficina de reparos que possibilitasse passar a borracha de um laser sobre os traços de amores já vencidos mas ainda legíveis. Para apaixonados mais impetuosos, esses que vão de amor em amor com pouco ou nenhum intervalo, este mecenas financiaria a tatuagem de um espaço retangular no qual, ao sabor de Cupido, nomes pudessem ser sucessivamente escritos e apagados sem necessidade de recurso ao laser; pois dentro dessa moldura novos amores seriam entronizados com tinta não perene, como essa de que as mamães se servem para adornar temporariamente os corpos de suas crias.

Se parte dessa verba seria utilizada na ilustração de minha própria pele? Pouco provável. Até por decurso de idade, pertenço ao grupo mais e mais minoritário daqueles cujos “sinais particulares” poderiam ser assim descritos, como raridades que são, na ficha da Polícia ou do IML: “Ausência de piercing e tatuagem”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.