Capítulo 07

Veja como a Academia de Hollywood avançou um passo e recuou dois

O Oscar 2019 apresentou surpresas, como Olivia Colman, mas, no prêmio principal, apostou no tradicional 'Green Book'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2019 | 17h11

Caro leitor,

Nossa viagem rumo ao Oscar 2019 chegou ao fim e, apesar de uma surpresa aqui e ali, acredito que o saldo da premiação realizada no domingo, 24, foi ligeiramente decepcionante. "Ligeiramente" porque Hollywood premiou dois atores em papeis de homossexuais (Olivia Colman, em A Favorita, e Rami Malek, em Bohemian Rapsody) e, depois dos protestos de artistas negros contra o Oscar SoWhite de 2018, os prêmios de coajuvantes foram para Regina King (Se a Rua Beale Falasse) e Mahershala Ali (Green Book: O Guia) - escolhas merecidas, independente de reivindicações.

Mas o que dizer sobre o Oscar de melhor filme para Green Book? Uma escolha na qual que Hollywood sinaliza que, como dona da festa, a principal celebração do cinema mundial é para a própria indústria. Netflix é bem-vinda - levou três Oscars por Roma (direção, fotografia e filme estrangeiro, todos para Alfonso Cuarón) e outro para Period - End of Sentence, na categoria de documentário de curta-metragem. É o suficiente. Vejamos, pois, as lições que ficam desse Oscar.

Melhor filme

A definição do principal prêmio da noite foi a mais previsível, pois, apesar dos confetes jogados em Roma (especialmente por parte da imprensa especializada americana), grandes nomes da indústria (Steven Spielberg, por exemplo) resistiam à possibilidade de coroar um produto de uma empresa de streaming. O Oscar para Green Book espelha bem como Hollywood se vê hoje, o que pode tanto ser frustrante como iluminador.

Pantera Negra

Como de hábito, o blockbuster ficou com os prêmios técnicos, mas foi animador ver Ruth E. Carter (figurinos) e Hannah Beachler (desenho de produção) subirem ao palco para se transformarem nas duas das únicas três mulheres negras a ganharem um Oscar em uma categoria diferente de atuação.

Spike Lee

Uma das grandes figuras da noite. Ficou tão encantado com o inesperado elogio público da grande Barbra Streisand que até o deixou sem palavras. Mas recuperou o fôlego ao dividir o prêmio de melhor roteiro adaptado, por Infiltrado na Klan. Não escondeu sua irritação com a vitória de Green Book, ensaiando uma fuga do teatro. Nos bastidores e depois nas festas, sempre carregava uma taça de champanhe, que o ajudava a disparar frases como "Sempre perco quando enfrento um filme com alguém dirigindo", referindo-se a Conduzindo Miss Daisy, que venceu Faça a Coisa Certa, em 1989.

Netflix

A maior produtora de conteúdo de streaming do mundo investiu, segundo o New York Times, cerca de US$ 30 milhões na campanha do Oscar de Roma. Conquistou três prêmios (direção, fotografia e filme estrangeiro), mas perdeu o mais ambicionado - o de melhor filme. Mesmo assim, deu um importante passo em seu plano de consolidação no mundo cinematográfico.

Cerimônia sem anfitrião

Desde 1989, a festa não tinha um comandante fixo. A renúncia de Kevin Hart - que não resistiu às críticas por tuítes homofóbicos há alguns anos - deixou a Academia numa sinuca de bico. Por fim, a intenção de diminuir o tempo de duração da festa serviu como uma boa desculpa para não ter mais apenas um anfitrião. O resultado foi aprovado pela maioria dos críticos e do público que acompanhou pela TV, que aumentou em 12% em relação a 2018.

Lady Gaga

A cantora mostrou que continua ótima cantora, ainda devendo muito como atriz, mas sua presença no Dolby Theatre foi iluminadora. Em seu discurso, apesar do tom ingênuo, Gaga passou uma rara verdade, fazendo com que se acreditasse de fato em suas palavras. E, ao lado de outra rainha, Madonna, ela mostrou que sabe dominar muito bem a mídia mundial.

Trump

O presidente americano não foi nominalmente mencionado, mas suas atitudes inspiraram comentários diversos. Spike Lee, por exemplo, pediu que, na eleição presidencial do próximo ano, as pessoas ficassem "no lado certo da história". se esquecessem do ódio e pensassem na paz. E, no início da cerimônia, Maya Rudolph, depois de anunciar que não haveria um único apresentado, cutucou: "E o México não vai pagar pelo muro".

Foi, enfim, uma festa com ótimos momentos, boas surpresas (Olivia Colman agradecendo, catatônica, pelo Oscar de melhor atriz que 10 em cada 10 apostadores juravam ser de Glenn Close) e uma bela indicação de que o futuro é promissor, especialmente para quem gosta tanto da cerimônia do Oscar - assisto continuamente pela TV desde 1976 e, a partir de 2005, tenho o prazer e honra de acompanhar da sala de imprensa.

Essa nossa viagem até o Oscar 2019 termina aqui. Agradeço sua companhia, mas o cinema não para, assim como os festivais. Para continuar acompanhando, siga os blogs de Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio, que trazem detalhes do mundo da sétima arte. 

 

Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil

Editor de Cultura

Jornalista desde 1985, cobriu grandes eventos esportivos (Copa do Mundo, Olimpíada) e culturais (Oscar, Feira do Livro de Frankfurt). Assim, não troca um pelo outro.

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