Vegas, um marco na noite de São Paulo

Quando abriu suas portas no número 765 da Rua Augusta em junho de 2005, o clube Vegas chegava para trazer um ar fresco à noite de São Paulo, que àquela altura sofria de uma síndrome que costuma deixar tudo muito chato: clubes e DJs se levavam a sério demais.

O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h06

A primeira quebra de paradigma do Vegas veio justamente aí. Na comunicação do clube, os sócios Facundo Guerra e José Tibiriçá diziam que ali o que menos iria importar eram nomes de DJs estrelados.

Na semana de inauguração, as noites já davam ideia de que o Vegas não seguiria a fórmula de outras casas de São Paulo, abrindo espaço para DJs pouco conhecidos e até para não DJs.

Além da programação pouco ortodoxa, a localização também causou um fuá. Hoje parece impossível pensar na Rua Augusta sem a sua night, mas, quando o Vegas chegou, não havia quase nada de vida noturna além das "casas da luz vermelha" que estão ali, parece, desde que o mundo é mundo.

Pois o Vegas causou. Chacoalhou a vizinhança, incomodou a concorrência, levou caravanas de curiosos para a parte até então "baixaria" da Augusta. Fez e aconteceu. E na parte musical também fez história: uniu roqueiros, clubbers da velha guarda, molecada debutando na noite, fãs de Lady Gaga, devotos do subgrave. Em sua diversidade, abriu para noites de estilos múltiplos, do drum'n'bass ao rockabilly, da música eletrônica retrô ao dubstep, e, mais recentemente, escancarou também para o pop de FM.

O clube virou um caso de sucesso, um ponto turístico em São Paulo e acabou gerando uma revitalização da noite em seu entorno. Se hoje se fala em Baixo Augusta e toda a sua eclética fauna, em boa parte, é por "culpa" do Vegas.

O discurso dos donos na época da inauguração parecia prever também uma mudança de comportamento no povo da noite. Com o fortalecimento das redes sociais, a balada acabou virando um lugar pra continuar o papo virtual da tarde e, assim, a música foi ganhando status de pano de fundo.

Ainda assim, o Vegas recebeu bandas e DJs dos mais importantes do Brasil e do mundo. Passaram por suas cabines nomes como James Murphy e Pat Mahoney (LCD Soundsystem), Greg Wilson, Luomo, Daniel Wang, Andy Butler (Hercules & Love Affair), Boyz Noize, Marky Ramone, Carl Craig, além de todos os grandes brasileiros, alguns, inclusive, residentes da casa.

Tive a felicidade de manter um projeto no clube e ajudar um pouquinho a escrever a sua história. Ao lado do parceiro Camilo Rocha, mantivemos no clube a noite Discology, dedicada à música de pista de décadas passadas, por seis anos. Lá vivi meus momentos de DJ de verdade e vi alguns dos sets mais históricos da minha vida - como o do DJ Marky tocando e cantando junto com os discos na nossa festa de despedida.

Depois de sete anos e alguns clones (que eu me lembre, o Vegas ganhou filiais genéricas em Belém e Teresina, pelo menos), o clube anunciou oficialmente seu fim esta semana. O motivo? A galopante valorização imobiliária que o próprio Vegas ajudou a fomentar em seu pedaço de chão.

Segundo o comunicado de encerramento do clube, "o galpão onde o mesmo se encontra recebeu uma proposta de compra milionária para ali ser montado um empreendimento imobiliário. Como inquilinos, nunca poderíamos cobrir a oferta que o imóvel recebeu e batalhamos até o último segundo, mas nesta segunda-feira resolvemos jogar a toalha. O Vegas tombou não por conta da falência do projeto, mas em virtude do preço do metro quadrado na região, hoje uma das mais valorizadas de São Paulo".

É verdade que, em 2012, o Vegas já não conseguia atrair o mesmo público sedento por novidades que por ali circulava em seus primeiros anos - ciclo migratório que costuma se repetir nas casas noturnas de São Paulo. Mas a casa fechou suas portas com noites lotadas e com todas as contas em dia.

"Em São Paulo, é difícil se manter fazendo uma coisa legal, honesta, sem sair chamuscado. Era o projeto pelo qual tinha mais carinho, era mais grato", diz o sócio Facundo Guerra, que depois do Vegas ajudou a abrir outros cinco empreendimentos noturnos na cidade (os bares Volt e Z Carniceria, a casa de show Cine Joia e os clubes Yacht e Lions). "Mas parar de lutar contra foi um sinal de amadurecimento. Pensei, quer saber de uma coisa? Vai em paz. No final das contas, toda história tem que ter um fim. A gente foi vitimado pelo nosso sucesso. Nosso final foi tão bonito quanto o começo."

Portanto, em breve, veremos mais um marco da cidade se transformar em espigão habitacional com varanda gourmet. Mas vou sempre poder passar em frente e contar pras minhas filhas como fui feliz ali. Missão cumprida, Vegas!

Claudia

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