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Vários dedos de prosa

Patrão de Otto Lara Resende na revista Manchete, Adolpho Bloch vivia anunciando um plano extravagante: queria ser enterrado no mesmo túmulo que ele – para que pudessem, explicava, seguir batendo papo eternidade afora. Não há notícia de outro admirador do jornalista e escritor mineiro que tenha chegado a tamanho exagero retórico, mas todos, e eram tantos, entenderam o que Bloch dizia.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2015 | 02h00

Otto “foi quem melhor soube conversar no país e no seu tempo”, resumiu um deles, o colunista político Carlos Castello Branco, na morte do amigo, faz 23 anos na próxima segunda-feira – e acrescentou: “Ninguém na sua geração teve o dom da palavra e da convivência tanto quanto ele”. Outro, Nelson Rodrigues, que fez de Otto um personagem obsessivo, comparou-o a “um cano furado” a esbanjar talento verbal – e sugeriu que se pusesse um taquígrafo nos calcanhares desse perdulário do espírito, com a missão de recolher mercadoria para uma “Loja de Frases”. Sem chegar a tanto, reuni, sob esse título, um punhado de pepitas verbais num caderno que faz parte do Arquivinho Otto Lara Resende, deliciosa miscelânea editada para a Bem-Te-Vi por Lélia Coelho Frota em dezembro de 2006.

O próprio Otto se via como “um falante que ama o silêncio”, e tinha horror ao folclore que em torno dele se formou – por obra e graça, sobretudo, de Nelson Rodrigues, que, como se sabe, chegou a usar o nome do amigo como título alternativo de uma peça: Otto Lara Resende ou Bonitinha Mas Ordinária. Provavelmente foram criadas por Nelson algumas das frases a ele atribuídas, a começar pela célebre “O mineiro só é solidário no câncer”.

Falante, o escritor mineiro não cuidava de reter no papel os frutos da sua legendária conversação. Era arisco, mas, uma vez capturado, derramava-se em brilho e graça. “O Otto é feito passarinho”, dizia Rubem Braga: “De quem pegar primeiro”. Já maduro, parecia lamentar-se por haver pulverizado sua criatividade em demasiadas frentes, a começar pelo bate-papo. Quando morreu, aos 70 anos, tinha sido escritor, jornalista, homem de televisão, procurador da Justiça, funcionário diplomático e até diretor de banco. Borboleteando por tão diversas atividades, nunca parou de escrever – mas reconhecia-se como “um escritor que foge de sua convocação”.

Otto queria com isso dizer que não cuidou como deveria de seu dom mais caro, o de ficcionista. Deixou duas dezenas de contos, duas novelas e um romance, em livros que se recusava a reeditar – sofria de bibliofobia, diagnosticou o amigo Hélio Pellegrino –, textos que, perfeccionista, reescreveu interminavelmente. Seus últimos anos foram consumidos no esforço de “despiorar” O Braço Direito, romance de 1963. “Já nem sei se é braço direito ou esquerdo”, dizia. Daí resultou um escrito tão diferente do primeiro que se pode falar em livro novo. Dois braços direitíssimos. O segundo depois de sua morte – e só então, liberta da severidade implacável do autor, a obra de Otto Lara Resende, espraiada por vários gêneros, pôde voltar à tona.

De modo esquemático, seriam quatro Ottos, todos eles magníficos. O ficcionista – de O Braço Direito, dos contos de Boca do Inferno e O Lado Humano, livro de estreia jamais reeditado, e das novelas reunidas em A Testemunha Silenciosa – escreveu quase sempre sobre um mundo soturno e abafado, marcado pela religiosidade opressiva das Minas Gerais interioranas em que ele se criou. No terreno da não ficção, ao contrário, tudo vem banhado em luz. É assim o articulista Otto Lara Resende, de quem se deve ler a esplêndida coletânea de perfis O Príncipe e o Sabiá. Mais solar ainda se mostra o cronista solto, bem-humorado, lírico e reflexivo de Bom Dia para Nascer, seleção dos textos publicados na Folha de S.Paulo nos anos finais de sua vida.

O último Otto, por fim, o Otto das cartas, mal começa a ser desvendado. Entre os nossos escritores, talvez só Mário de Andrade tenha sobrescritado mais envelopes do que ele. Não surpreende que em 1994 os Correios tenham homenageado com a emissão de um selo esse raríssimo brasileiro que não deixava bilhete sem resposta.

Na sua correspondência, Otto se esparrama, divertido, eventualmente endiabrado, jamais desinteressante. Abra em qualquer uma as 412 páginas de O Rio É Tão Longe – Cartas a Fernando Sabino, que tive o privilégio de organizar para a Companhia das Letras, e confira. Tomara que possamos ler também, em breve, a correspondência que trocou com Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Dalton Trevisan e tanta gente mais.

Quem mergulha nesses velhos papéis pode emergir com a impressão de que o melhor Otto talvez seja o das cartas. A discussão é boa, mas não me pega: dos muitos Ottos que há, prefiro ficar com todos.

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