'Variações sobre o prazer', um livro para degustar

Sofrimento e prazer. Era o livro que ele diz, já de cara, no prefácio, que não deveria ter escrito. Não achava o fim. Mas lendo que Albert Camus queria escrever tudo que lhe passasse pela cabeça, ''sem ordem'' ("Cadernos da Juventude"), e morreu antes, decidiu fazer um "Livro Sem Fim" (2002 - Loyola) que, na reedição, lançada em janeiro deste ano (Editora Planeta), virou "Variações Sobre o Prazer". Um livro saboroso, feito para ser devorado. Rubem Alves, poeta, cronista, teólogo, psicanalista e escritor com mais de 80 obras publicadas conseguiu, como um ''chef'', juntar e temperar, nele, como ele mesmo diz, "palavras que são boas para comer".

PEDRO FÁVARO JR., Agência Estado

04 de fevereiro de 2011 | 07h11

"Essa é a verdadeira função de um escritor", defende em entrevista à Agência Estado para falar da publicação - um livro sem notas de rodapé mas, como foi feito para ser comido, com notas de ''canapé'' para se saborear na caminhada por Descartes, Nietzsche, Marx, Agostinho de Hypona, Kierkegaard, Kant com paisagens e contrapontos de Goethe, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Roland Barthes, Manoel Barros, Octávio Paz, García Márques, Gustavo Corção, Borges... Uma delícia.

O escritor garante - não fez um livro contra o método. Mas não nega: o fez para libertar-se das regras do discurso acadêmico. Não queria um livro para a razão, um livro útil, do mundo dos saberes. Mas desejava tocar o mundo da sapientia - da sabedoria com prazer - que pudesse ser "corpo e sangue" dele, experiência dele, os sabores que ele fosse capaz de contar para todo mundo que experimentou e que lhe deram alegria, mas para o qual os "saberes" - o conhecimento somente - não serviriam, porque não conseguiriam traduzir o gosto. O sofrimento, como no parto, passou. Ficou o livro, filho gerado pelo prazer.

Porque logo de saída, no prefácio, você avisa - Eu não deveria ter tentado escrever este livro?

RUBEM ALVES - Porque o livro estava me fazendo sofrer. Fiquei obcecado com a ideia, que me parecia muito boa. Todos os meus momentos livres, eu os dedicava a escrever. E, com isso, não me sobrava tempo para o prazer. Escrever deve ser uma experiência de felicidade.

"Variações Sobre o Prazer" ou o "Livro Sem Fim" apareceu como uma espécie de contestação ao método, ressistematização ou por puro prazer, para negar tudo isso? É uma defesa do pensamento em antítese ao fazer, produzir, lucrar...? Um manifesto contra e educação utilitarista e pragmática, da ''múltipla alternativa'', do ''diploma'', em favor de uma educação que ensine com amor o prazer e a alegria de pensar, de se alcançar o conhecimento?RUBEM ALVES - Não, eu não estava pensando em contestar o "método". O que eu queria era fazer o que Albert Camus desejava. No seu "Cadernos da Juventude", escreveu: "Quando tudo estiver acabado: escrever sem preocupação de ordem. Tudo o que me passar pela cabeça". ( A. Camus, Primeiros Cadernos, p. 427). Ele não teve essa chance. Morreu antes. O "Assim Falava Zaratustra" é um exemplo dessa desordem, as palavras sendo levadas pelo vento... O consciente marcha. O inconsciente dança...

Qual o peso que o ''crepúsculo'' (a velhice) teve na decisão de trocar os ''saberes'' - o conhecimento formal que é bom e útil - pelos ''sabores'', o saber com gosto, alegria, prazer?

RUBEM ALVES - Precisei, primeiro, libertar-me das regras do discurso acadêmico. E isso aconteceu não por uma decisão pensada, mas pela minha experiência com a minha filha pequena. Comecei a escrever estórias para crianças em resposta às suas perplexidades e sofrimentos. Essa experiência de escritor - que surgiu de repente, seu preparo - abriu as portas para o meu jeito de escrever para os adultos. Aprendi que quem lê com prazer aprende mais... Trata-se de uma filosofia de vida: "carpe diem - colha o dia". É para isso que vivemos. Como disse Fernando Pessoa, "dia que não gozaste não foi teu. foi só durares nele...

No seu livro a gente entra no mundo classificado como ''pesado'' da Filosofia e examina universos distintos - Descartes, Nietzsche, Marx, Agostinho de Hypona, Kierkegaard, Kant... - a partir de paisagens, contrapontos ou ''ilustrações'' de Goethe, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Roland Barthes, Manoel Barros, Octávio Paz, García Márques, Gustavo Corção, Borges... Isso sem falar na música - Mozart, Schumann, Chopin, Beethoven e nos grandes pintores e sua preferência pelas ''figuras''. Que ''feitiçaria'' o senhor usa para escrever, que pode se transitar por esses filósofos como quem mora num sítio e vai ao galinheiro, no quintal, buscar um ovo para fritar. E volta, e frita e come o ovo ''estalado'' e se lambuza?

RUBEM ALVES - Gostei da metáfora... É isso mesmo. Cada uma das pessoas que você cita é um ninho cheio de ovos. Compete ao escritor exercer com os ovos a sua arte de "chef"... Produzir palavras que são boas para comer. Não uso feitiçaria alguma. Não tenho um método. As palavras e as ideias simplesmente vêm. Feiticeiro não sou eu. São as palavras...

"Hoc est corpus meum" - escrever com o sangue, com as feições da própria história, com as histórias vividas e experienciadas - é o segredo, a feitiçaria, para se produzir um livro para ''comer'', como esse seu? Um livro fácil de ''devorar''? Este livro é ''seu corpo e seu sangue'' mesmo? É uma ''transubstanciação''?

RUBEM ALVES - Esse é o meu desejo: transubstanciação. Quero transformar-me no meu próprio corpo, para que os leitores, ao me lerem, fiquem um pouco parecidos comigo...

Todos os outros livros que escreveu foram sofridos ou lhe deram o mesmo prazer e a alegria que se percebe que teve ao escrever esse?

RUBEM ALVES - Não. Há livros que me dão alegria maior, livros nos quais eu me vejo refletido. Esse livro "Variações Sobre o Prazer" me dá grande alegria, a despeito do sofrimento. Vale, para mim, o aforismo de Blake: "O prazer engravida, mas o sofrimento faz parir. Cada livro é um filho...

SERVIÇO - "VARIAÇÕES SOBRE O PRAZER", Alves, Rubem. Editora Planeta, 2011. 192 páginas. R$ 19,90.

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