Variações em torno da poesia

Livros de cinco poetas brasileiros, em diferentes fases de suas trajetórias, revelam propostas distintas para o gênero

Moacir Amâncio, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Esta safra de cinco livros de poemas pode ser uma oportunidade para praticar o jogo da descoberta da poesia ou da não poesia. São obras de autores em várias fases da vida e as diferenças entre eles são grandes, o que só torna a leitura mais acidentada e curiosa. As tendências são tão variadas quanto o número de autores, ou mais:

O paraense Age de Carvalho, de 1958, há anos radicado na Europa, onde vive entre Viena e Munique, tem uma carreira firmada. O uso de termos alemães, ingleses ou franceses nos seus textos não parece a rigor o índice de uma poesia cindida. Pelo contrário, o que se percebe na leitura de Trans é a tentativa de chegar a um tom abrangente que supere as diferenças idiomáticas e nacionais em nome de uma universalidade depreendida a partir do título. Estabelece-se um diálogo translinguístico e transexistencial. Exemplo bem acabado dessa experiência que transforma a vida em linguagem está em Der Ort Wohin: "O lugar Aonde",/como traduzi/ Para ter onde ir -//O sonho da cabana,/à revelia desta Hora/toda agora e agonia, permanece/se ergues um dedo,/ mínimo gesto: se//(onde é aonde?)//te moves,/tudo/ se move." O final é ambíguo e esclarecedor ao mesmo tempo, todo o poema gira em torno do monossílabo "se", pronome e partícula condicionante - tempo e espaço se alteram no momento fugidio do trans.

Em Figurantes, Sérgio Medeiros, 51 anos, professor, poeta e tradutor experiente, que vive em Florianópolis, faz um inventário do cotidiano fantástico. Propõe-se a uma leitura ou releitura do mundo, em busca das surpresas do banal. E, para isso, lança mão de palavras simples, que estabelecem um atrito com o que descrevem. É uma tensão constante, coloca-se algo a ser pensado ou discutido. Como neste trecho, ou poema intitulado Vigésima Nona: "Um urubu sobrevoa o estádio vazio/ É como grande lata aberta ao sol/ A sombra do urubu percorre a gasta arquibancada ocre// A vigésima nona abre caminho no capim/ Avança como sobre um fio esticado/ De repente o fio arrebenta/ Ou verga até o chão fundo." À aparente continuidade do voo - o positivo - opõe-se o negativo entrecortado da sombra que esclarece a cena pelo contrário; vale o reflexo, pois este contém o refletido.

A jornalista paulistana Analu Andrigueti, de 1977, pode oscilar entre o humor e a constatação do insuficiente, da frustração, de nunca chegar lá, no tempo, no espaço, nas relações. Seus poemas de temática erótica funcionam melhor quando optam pela tonalidade franca e talvez risonha. O humor, à primeira vista, redime, mas na verdade ressalta impiedoso a mesmice das cenas e a angústia diante das emoções fugidias. Em certos momentos, Analu se expõe a um tom oswaldiano que se tornou fórmula e tem público cativo, mas compromete a própria poesia desse Andrade e mostra o limite histórico dos seus procedimentos. Veja-se o seguinte poema: "Meu terapeuta disse que não sou bipolar,/mas bivalente.//Para nós duas dá na mesma." A Matadora de Orquídeas, seu livro de estreia, abre outra aposta, além da erótica, num texto como o da pág. 48: "Kafka bateu na minha porta/e pediu para eu experimentar.//Ensinou a esticar o braço,/tomar na veia,//injetar um pouco / de sangue de barata / e ver no que dá." Topar o clichê kafkiano é de suas melhores saídas pelo espaço (fechado), do humor.

Outra estreante, do Rio, é Ana Tereza Salek, de 24 anos, com Dezembro. Também há excessos neste livro que chama atenção pelo cuidado da autora em busca de uma frase poética marcada por ritmo discreto - Age tem outro caminho para isso, a linha curta, o corte brusco, a montagem. Cecília Meireles, Ana Cristina César ao fundo (pág. 16), diz Ana: "Na cidade grande as cadelas se escondem/e carregam a outra pilastra, com esforço./Escutam vozes debaixo do chão; miragem,/o piso é pedra, arde. Do piso da cidade grande:/a urina da cadela escorre, sem nunca, jamais!,/penetrar a terra, em fosso. (É tarde!)." Por que os sinais de exclamação?

Augusto de Guimaraens Cavalcanti, de 1984, é o mais inquieto dos autores em pauta. Os Tigres Cravaram as Garras no Horizonte não apresenta barreiras entre o modo "poético" da linha quebrada e a prosa. Isso também pode ser uma rotina, mas evitar a caça de meras novidades como quem procura uma embalagem mais recente de sabonete também pode ser opção interessante. Ele parte de um horizonte passado para tentar trazer à tona o presente ou mesmo o futuro, num grande sinal de interrogação. Como observa o apresentador Claudio Willer, o poeta retrabalha símbolos e linguagem da contracultura em sua fugacidade. Sua erudição é pop e o contrário disso, ou, no panorama desenhado pelo poeta, a esta altura, o que antes passava por diferença torna-se identidade, dá tudo no mesmo. É rigoroso e lúdico. Sobre a Vênus devoradora (pág. 43): "ela tinha flores no cabelo / eu escapei pelas paredes / ela tinha paredes no cabelo." A "prosa" é mantida sob controle. Este trecho pertence a Epitáfio Napalm: "Nas páginas de gelo e nas bordas sagradas, esse livro continuará a ser inscrito nos planetas dos disfarces e nas igrejas de néon, nas flâmulas em chamas, nas bandeiras em fogo. Esse livro com letras de água. Nos letreiros das obras e no findar das tardes. Flutuantes alvos nas piscinas intermináveis." O risco que era do poeta, ao escrever, agora é do leitor.

MOACIR AMÂNCIO É POETA, PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA DA USP E AUTOR DE YONA E O ANDRÓGINO (EDUSP/NANKIN) E ATA ( RECORD)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.