Marcos de Paula/Estadão – 18/4/2013
Marcos de Paula/Estadão – 18/4/2013

Vargas Llosa exibe a difícil luta contra a corrupção

Em ‘O Herói Discreto’, autor defende a existência de homens honrados

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2013 | 22h17

Aos 77 anos, o escritor peruano Mario Vargas Llosa ainda acredita em heróis. Não os que usam capas e cuecas sobre as calças, voando e caçando bandidos, mas um outro tipo, pode-se dizer quase improvável: aquele que, mesmo vivendo entre mafiosos ameaçadores, governos corruptos e familiares gananciosos, mantém uma integridade inabalável. “Gosto do sujeito comum, autêntico, invisível na sociedade, mas vital para a sua boa manutenção”, diz ele, que elegeu um homem com esse perfil para protagonizar O Herói Discreto, seu mais recente romance, lançado agora pela Alfaguara.

Trata-se de uma agradável surpresa – depois de conquistar o Nobel de Literatura em 2010, Llosa lançou um livro notadamente triste, O Sonho do Celta, e, em seguida, um conjunto de ensaios, A Civilização do Espetáculo>, em que duramente critica a banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política, Llosa – que conversou com o Estado, por telefone, desde Nova York, na quinta-feira – volta-se para um tema mais solar e otimista.

Agora, seu herói discreto chama-se Felícito Yanaqué. Proprietário de uma empresa de transportes em Piura, no norte peruano, ele é surpreendido, certo dia, por uma chantagem: uma carta anônima, presa à porta de sua casa, informa que sua família e sua empresa continuarão em paz desde que ele aceite fazer um pagamento mensal. O texto não é assinado e termina com o desenho de uma aranha. Para piorar, seus amigos empresários que também foram alertados, temerosos, acatam a extorsão para manter a tranquilidade.

Fiel à recomendação deixada pelo pai (“Nunca se deixe pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que posso lhe deixar”), Yanaqué decide enfrentar o inimigo invisível, mesmo colocando em perigo o trabalho, os amigos e os familiares. É o início de uma epopeia em que Llosa volta a situar o Peru como cenário de uma história, agora acompanhando o embate entre vilania e integridade.

Volta-se também para personagens que já marcaram sua obra, como Lituma e Don Rigoberto, que não apenas complementam a trama como também promovem um jogo de contrastes. “Acredito que O Herói Discreto seja a obra mais otimista que já escrevi”, comentou Llosa, agora preparando uma peça de teatro.

No livro, ele volta a usar o Peru como cenário

Na quinta-feira, quando Mario Vargas Llosa conversou com o Estado, foi anunciado o prêmio Nobel de Literatura para a canadense Alice Munro. “Uma ótima escolha, especialmente para engrossar a lista de mulheres premiadas, ainda muito pequena”, comentou ele. O detalhe revela uma preocupação presente também em sua obra.

Em  O Herói Discreto, o empresário Felícito Yanaqué é casado, tem uma amante, mas a mulher mais importante de sua vida é Adelaida, dona de uma loja de plantas e vidente nas horas vagas, a quem Felícito recorre sempre que tem de tomar uma decisão importante – especialmente no momento em que decide enfrentar os chantagistas, ao contrário dos amigos que cederam à extorsão por conta do medo.

Em paralelo à história de Yanaqué, Llosa mostra o drama de Ismael Carrera – viúvo, dono de uma companhia de seguros, ele decide se aposentar precocemente. E, ao perceber que os filhos gananciosos querem apenas seu dinheiro, Carrera se casa secretamente com uma jovem que trabalhou como empregada na casa da família, a fim de afastar os descendentes da herança.

São duas histórias aparentemente inconciliáveis que, depois de muitas voltas, irão convergir para um destino partilhado. E permitem que Llosa retorne não apenas ao seu país, agora transformado, como recupere ainda personagens de outros romances, como comenta na seguinte entrevista.

O que o motivou a retomar antigos personagens como Lituma e Don Rigoberto, além de evocar paisagens de outra obra sua, A Casa Verde?

Há algo misterioso com os personagens de meus livros. Muitos, depois de encerrada a história, terminam também seu ciclo. Mas há outros que não desaparecem, continuam em minha memória e, sempre que vou iniciar uma nova história, reaparecem, exibindo uma certa urgência, um potencial a ser aproveitado. Não sei dizer porque ocorre com alguns e não com todos. Lituma, por exemplo, sempre foi um personagem secundário, mas está presente desde meus primeiros escritos. Quando comecei essa novela, pretendia escrever apenas sobre a cidade de Piura. E, em outro texto, retomaria aqueles personagens. Mas, como já aconteceu antes, senti a tentação de unir as duas histórias em uma só. É curioso porque, sempre quando escrevo uma trama, sinto a necessidade de ampliá-la, acrescentando especialmente mais humor. Acho inevitável mostrar personagens movendo-se em um fundo social numeroso. E isso se encaixa bem na sociedade peruana.

Aliás, o Peru retratado neste romance é diferente, mais moderno. Também seu personagem principal, Felícito Yanaqué, é um homem mais otimista que outros criados em sua literatura.

É verdade, ele é um homem otimista. Sabe, o Peru mudou muito, nos últimos anos. Costumo passar ao menos três meses por ano em meu país e, ao viajar pelo interior, percebo uma grande transformação social e econômica que vem acontecendo desde o ano 2000, quando caiu a ditadura. E, além de governos democráticos, percebi algo raro na história peruana: uma economia aberta, dinâmica, progressista. Isso permitiu um desenvolvimento social, com ascensão da classe média, e um progresso visível nas cidades. Deixou de ser comum a existência de cidades como Piura. Então, decidi escrever uma história sobre um país bem distinto. Claro que surgiram novos problemas, como a delinquência, que é fruto do desenvolvimento, máfias...

E a corrupção, já apontada pelo senhor como um grande mal moderno.

Sim, é o problema maior do nosso tempo, algo que infesta tanto países desenvolvidos como os que ainda não são. Grande parte da crise vivida ainda hoje pela Europa e Estados Unidos nasceu da corrupção provocada pelo apetite de lucro de empresas e bancos, que chegaram a transgredir as leis. Na América Latina, o grande problema foi o crescimento do narcotráfico, que criou máfias economicamente poderosas. Pretendi retratar esse momento no romance. E o que me mais chama atenção, algo que se passa também em outros países, é o surgimento de empresários vindos de uma origem humilde – diferente daqueles do passado, que herdavam fortunas. Daí meu personagem Felícito Yanaqué ser um pequeno empresário fiel a seus princípios.

O romance é crítico com o sensacionalismo de jornais e canais de TV. O senhor acredita que esse tipo de imprensa seja capaz de contaminar as instituições?

Creio que sim. Escrevi um ensaio sobre isso, A Civilização do Espetáculo. E o pior é que esse problema contamina até mesmo países cuja imprensa foi cultivada pelo rigor – é o caso da Inglaterra, que tem os jornais mais escandalosos do mundo (graças, em parte, ao senhor Rupert Murdoch). A informação desgraçadamente se transformou em uma forma de entretenimento. O jornalismo escandaloso que se nutre de polêmicas e frivolidade vem ocupando muito espaço, inclusive entre a imprensa mais séria, por conta de uma parcela de seus leitores que quer se entreter com essas informações marrons. O saldo negativo é a descaracterização da informação e o fomento da frivolidade, que culmina com o desrespeito generalizado entre as pessoas. E isso não se resolve com leis ou decretos, pois é um fator cultural.

Daí a força da literatura (em especial, da ficção) ao criar um pensamento crítico em seu leitor, não?

Com certeza. Tradicionalmente, a literatura exerce uma função crítica, conseguindo, algumas vezes, antecipar-se aos políticos e ideólogos ao apontar os problemas. Por isso, a boa literatura mantém viva a consciência crítica de uma sociedade.

O Herói Discreto exibe os chamados grandes temas ‘vargasllosianos’, ou seja, a luta das pessoas para viver de acordo com suas convicções e também a exploração dos dilemas humanos. E isso é feito a partir de uma certa necessidade de entrelaçar várias histórias, transformando a trama em um pequeno labirinto. É mais difícil escrever bem?

De forma alguma, porque sempre me interessei por aquelas figuras tímidas, quase desconhecidas, que não ficarão na história, mas cuja honestidade e hombridade formam a grande reserva moral de uma sociedade. Elas são imprescindíveis, são os chamados heróis discretos.

Outra de suas características, o humor, está de volta em grande estilo, não?

Os críticos espanhóis destacaram que essa história é maior e mais bem-humorada que muitos de meus romances anteriores. Concordo e não sei dizer se é graças a uma serenidade provocada pela consolidação democrática e econômica dos países latinos ou porque simplesmente estou mais velho. O fato é que O Herói Discreto flui mais tranquilamente, com menos solavancos. E a escrita agora foi menos traumática e mais serena que nos livros anteriores.

E o senhor já vem trabalhando em novos projetos?

Sim, um projeto teatral. Vai se chamar Os Contos da Peste, inspirado em Decamerão, os contos de Boccaccio (1313-1375). Ele viveu em Florença quando a Peste Negra devastou a Europa. Seus contos mostram o drama horrível vivido por jovens daquela época que, obrigados a ficar na cidade por conta da quarentena, se refugiam em uma casa que pertencia a Boccaccio e lá passam a contar histórias. Ou seja, descobrem que o imaginário e a fantasia são suas únicas válvulas de escape. Essa situação sempre me fascinou: uma espécie de cárcere privado cuja liberdade se personifica unicamente graças à imaginação, à literatura. Creio ser um fato muito dramático, portanto, teatral.

O HERÓI DISCRETO

Autor: Mario Vargas Llosa

Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

Editora: Alfaguara (344 págs., R$ 39,90)

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