Vargas Llosa e Felipe Gonzales, em debate

A literatura é superior à história, segundo Mario Vargas Llosa e Felipe González. Eles conversaram hoje em Madrid sobre A Festa do Bode e o ex-presidente pediu ao peruano que escrevesse um romance sobre Franco, para que os espanhóis saibam afinal quem foi o ditador. O encontro entre o escritor e um de seus leitores preferidos foi promoido pela editora Alfaguara para comemorar o primeiro aniversário de lançamento do livro. O público lotou a Casa da América, obrigando organização a instalar um telão do lado de fora do auditório. González disse que leu com "paixão" o romance sobre Trujillo. Para o ex-presidente, o romance não é tanto a história de um ditador como a "história do caudilhismo tão comum na cultura latino-americana" e criticou que o texto tenha sido julgado por seu maior ou menor rigor histórico. "É mais verdade que a verdade", disse Gonzélez, para quem uma investigação exaustivamente documentada "nunca nos dará a impressão de verdade" que Vargas Llosa nos deu. O escritor peruano concordou, sustentando "a superioridade da literatura sobre a história" e argumentou que Tolstoi foi o melhor historiador da guerra napoleônica, apesar das inexatidões de seu livro Guerra e Paz. Sublinhou ainda que "um romance conta uma verdade, não a verdade". "A verdade histórica não tem muita importância para um romancista", acrescentou Vargas Llosa, reconhecendo que no momento de escrever sobre o ditador domenicano Trujillo, inspirou-se no livro La Marcha de Radetzky, do austríaco Joseph Roth, que narra a queda do império austro-húngaro. "O que ele descreve só um romance poderia contar", disse. "Pois escreva algo assim sobre Franco", desafiou-o Gonzáles, para quem os espanhóis e sobretudo os jovens, precisam recuperar a memória sobre a ditadura e ninguém melhor do que Vargas Llosa para fazê-lo. Ambos dedicaram boa parte de seu encontro analisando a origem da ditadura.

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