Varella mostra São Paulo antiga em livro infantil

Sem ostentar a glória do Prêmio Jabuti em dose dupla, o de melhor obra de não-ficção e o de melhor livro de 1999, ambos pelo best seller Estação Carandiru, sua estréia no mundo das letras, o médico cancerologista Drauzio Varella, de 57 anos, cita Machado de Assis: "Sarna que ataca depois dos 50 não pára mais de coçar." Entregue de vez à literatura, sem resistência e com o maior prazer, ele lançou este mês, sem tarde ou noite de autógrafos por absoluta falta de horários na agenda, o infantil Nas Ruas do Brás (Companhia das Letrinhas, 80 págs., R$ 19,50, ilustrações de Maria Eugênia)."É indescritível a felicidade que sinto quando termino um parágrafo, releio e noto qualidade no que acabo de escrever" diz o escritor, absolutamente fascinado pela literatura como ofício. Prêmio Jabuti? "Nada", resume em uma palavra, querendo dizer que esse tipo de reconhecimento lhe passa batido. "Não entro nessa, o conceito de melhor é relativo e prêmios vêm assim como faltam, te deixando depois na maior frustração", explica. "Mais do que ganhar o Jabuti, o que mexeu comigo foi descobrir, nessa altura da minha vida, que sei escrever, que tenho esse dom essa habilidade."A princípio sem a intenção de ser autobiográfico, mas depois percebendo que isso seria inevitável, Varella relata, em Nas Ruas do Brás, sua infância no bairro paulistano dos anos 40, dominado pelos italianos, numerosos, barulhentos, gente simples, falando dialetos incompreensíveis uns para os outros, como ele descreve. "Era também um bairro cinzento, com ruas de paralelepípedo e poucos automóveis."O livro termina quando o menino protagonista, com 10 anos, toma seu primeiro refrigerante e solta, sozinho, seu primeiro balão, "que subiu para o céu pingando gotas de breu incandescente". Seu pai, um humilde contador, tem de se mudar para uma casa maior, que acomode melhor a família crescida depois do segundo casamento. Seguem para a Vila Mariana. O Brás vira passado.Aliança - Varella narra, antes de mais nada, uma história de liberdade. Portadora de uma doença rara, que enfraquece progressivamente os músculos, sua mãe, dona Lydia, morreu aos 32 anos, quando ele tinha 4 - e isso é contado lá pela metade do livro, de forma tocante e exemplar, no capítulo A Aliança, sem que o hábil escritor use nem uma só vez a palavra morte ou o verbo morrer."Era um tempo em que as crianças cresciam livres nas ruas e imagine, então, uma criança sem mãe", diz. "Eu jamais transformei minha vida de órfão em um poço de autocomiseração, portanto não poderia fazer isso no livro." E acrescenta: "Essa questão da orfandade, que tanto choca os leitores adultos, tem sua contrapartida de liberdade, fascinante para as crianças."Assim como fugiu do pieguismo de forma bem-sucedida, recusou-se com igual talento a falar do passado com um tom de saudosismo melado e escamoteador. "As pessoas têm mania de escrever memórias para dizer apenas como eram bons os tempos de antigamente", protesta. "Não, não eram - era uma época difícil ruim, terrível sob diversos aspectos."Ele lembra, por exemplo, que não havia geladeira, as comidas estragavam, as mães eram obrigadas a provar tudo antes de servir para os filhos, que morriam por uma simples amidalite. "Dois, três filhos morriam em cada família, por absoluta falta de antibióticos, e uma simples febre em um bebê era motivo de pânico entre os pais, que não sabiam se aquilo ia acabar em morte", relata."Não escrevi sobre 200 anos atrás, mas só 50, um tempo em que havia brigas horríveis nas ruas, moleques que batiam nos outros sem o menor motivo, perversos por natureza." Tudo isso aparece nas páginas de Nas Ruas do Brás, assim como as festas, as macarronadas coletivas, o futebol, os primórdios do cinema e sua vocação precoce para a medicina.Fórmula - Ao refletir sobre como deveria ser escrito um livro prioritariamente voltado para leitores mirins, Drauzio Varella não demorou muito para fisgar, com seu anzol afoito de pescador de palavras, o substantivo sinceridade. "Ser sincero é a chave de tudo, o jovem quer do adulto que ele seja verdadeiro, só assim ele o respeita", ensina o ex-professor de cursinho pré-vestibular, atividade que exerceu durante 20 anos, sempre com reconhecido talento para lidar com os adolescentes."Mas como ser sincero e escrever sobre coisas que vivi, sem virar um papo fosfórico demais e, portanto, de um memorialismo maçante?", continuou refletindo Drauzio Varella. Decidiu, assim, enveredar pelas sensações, contar cada fato de sua infância de acordo com o que sentiu na época em que ele ocorreu, ou seja, sem deixar o adulto de hoje interferir com suas interpretações e apenas passar para o papel o ponto de vista sensorial do menino-narrador. Foi assim que se lembrou da aliança da mãe escapando do dedo e rolando pelo chão na hora da morte - uma das imagens mais fortes de um livro repleto de imagens e também de sons, cheiros, gestos, gostos, sutilezas. Memória da pele, mais do que memória intelectual.

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