?Vaqueiros e Cantadores?, histórias brasileiras por Câmara Cascudo

AS ANDANÇAS (MUITAS) DO MESTRE CÂMARA CASCUDOUm livro sessentão. Editado pela primeira vez em 1939, Vaqueiros e Cantadores, de Luís da Câmara Cascudo, está de volta às livrarias. Roupa nova, com o selo da Global Editora. Na apresentação, o autor (1898-1986), considerado o maior folclorista brasileiro, fala de suas andanças pelo sertão. Diz coisas assim: "Reúno neste livro quinze anos de minha vida. Notas, leituras, observações, tudo que compendiei pensando um dia neste Vaqueiros e Cantadores. O material foi colhido diretamente na memória duma infância sertaneja, despreocupada e livre. Os livros, opúsculos, manuscritos, confidências e o que mais se passou posteriormente vieram reforçar, retocando o ´instantâneo´ que meus olhos meninos haviam fixado outrora. Vivi no sertão típico, agora desaparecido. A luz elétrica não aparecera. O gramofone era um deslumbramento".A antologia impressa em Vaqueiros e Cantadores (357 págs., R$ 53,00) é material para muita leitura. Nela estão muitos poetas do sertão. Em destaque, a peleja, famosa, do pernambucano João Martins de Ataíde com o alagoano Raimundo Pelado do Sul. Uma noite de martelo agalopado, gênero nobre da literatura popular, em União dos Palmares, Alagoas.AS AVENTURAS DE UM MARINHEIRO. CONTADAS POR OUTRO MARINHEIRO.Nascido numa família pobre, o norte-americano Jack London (1876-1916) trabalhou como operário, marinheiro e minerador (no Alasca) antes de se tornar escritor. Entre suas obras estão Caninos Brancos, O Tacão de Ferro e O Lobo-do-Mar. O livro Martin Eden (376 páginas, R$ 36,00), editado pela Nova Alexandria, é a história de um jovem marinheiro que abandona a sua vida de aventuras para conquistar, como escritor, a fama e o amor de uma mulher. Seu êxito acabará, no entanto, custando-lhe caro. Como ocorre em outras obras de Jack London, o romance é uma narrativa semibiográfica, em que o autor não faz referências apenas a fatos e lugares, mas também aos seus próprios dilemas. Na narrativa direta, com muitos diálogos e descrições - o que atenua um pouco o discurso de natureza política, não comprometendo demais a leveza típica do gênero "aventura". Tradução de Aureliano Sampaio.AS MEMÓRIAS DE UM CERTO JULIANO, COM O HUMOR REFINADO DE TEZZA.Em Juliano Pavollini, lançado em 1989 e reeditado pela Rocco, o romancista catarinense Cristovão Tezza conta a história de um homem que, segundo ele próprio, tinha tudo para dar certo. O narrador é, em alguns momentos, o adolescente que experimenta os percalços de uma sobrevivência problemática, esmagado pela insegurança, pelo erro e pela culpa, e em outros o homem maduro, na cela da prisão, confessando à psicóloga Clara a sua história. A história começa na infância difícil, sob o jugo de um pai severo, passando para a rebeldia crescente, que preconiza a intensidade dos sentimentos que o acometeram numa jornada de tragédias. A trajetória é curta, mas forte: foge de casa aos dezesseis anos, no dia da morte do pai, e refugia-se nas asas de Isabela, uma mulher que parece a deusa salvadora de sua vida, num bordel da Curitiba dos anos 60. Depois, como que seguindo o roteiro do abandono, envolve-se em assaltos na periferia, sonhando ao mesmo tempo com um futuro tranqüilo, invejando os pequenos prazeres da classe média, que ele vê como modelo. O romance Juliano Pavollini (216 páginas, R$ 26,00) tem a marca da literatura de Tezza, principalmente o seu humor refinado.A HISTÓRIA DE DOM SEBASTIÃO. UM REI QUE MUDOU PORTUGAL.O fascinante, nos romances históricos, é que, às vezes, a História mostra-se mais surpreendente e dramática que a própria ficção. É o caso de O Desejado. O livro nasceu de um amplo trabalho de pesquisa histórica de Aydano Roriz, que visitou vários dos lugares nele retratados (Portugal, Bélgica, Espanha) e consultou centenas de sites da Internet e livros do século XVII em português arcaico. A idéia inicial de Aydano era romancear os quase doze meses da ocupação holandesa na Bahia. Mas foi descobrindo fatos tão curiosos sobre o Portugal daquele tempo que decidiu adiar o projeto e escrever sobre Dom Sebastião. Rei aos três anos de idade, morto aos vinte e quatro em cruzada contra os muçulmanos, Dom Sebastião mudou a História de Portugal. Transformado em mito, vários séculos depois ainda vive no imaginário popular.Todos os personagens que permeiam o romance atuaram no palco da História, nas circunstâncias descritas. O que o autor fez foi emprestar a cada um deles vida nova e personalidade. O Desejado (Prestígio, 480 páginas, R$ 36,90) é o terceiro romance histórico de Aydano Roriz. Historiador de fim-de-semana, a vivência na área jornalística não permite que ele se atenha a apenas uma versão dos fatos. "O gostoso, mesmo, é cruzar fontes antagônicas, para chegar depois à sua própria conclusão", diz o escritor.UM LIVRO DA CORTEZ EDITORA. NELE, UM DEBATE SOBRE O MARXISMO.O livro Filosofia Política Marxista, da Cortez Editora (240 páginas, R$ 29,00), apresenta um conjunto de trabalhos que abordam diversos temas da filosofia política contemporânea. A tese central, que une seus diversos capítulos, pode ser sintetizada nestes termos: na época de crise civilizatória em que se encontra submerso o capitalismo, a filosofia política marxista contém os elementos conceituais e axiológicos necessários para pensar numa alternativa de saída à crise atual. Embora se reconheça que, no plano intelectual, tal empresa requererá o concurso de outras vertentes do pensamento crítico contemporâneo, também fica claro que, sem a contribuição da teoria marxista, será impossível vislumbrar caminhos que nos distanciem das penumbras do capitalismo contemporâneo.O livro Filosofia Política Marxista, de Atílio A. Boron, professor da Universidade de Buenos Aires, propõe-se a contribuir nessa direção, revalorizando a riqueza das perspectivas marxistas sobre o Estado, política e democracia, sobre a conjuntura e utopias, e situando o pensamento marxista no centro do debate filosófico-político de nossos dias.MAIS UM CÂMARA CASCUDO. AGORA, A SUA REDE DE DORMIR.Um Câmara Cascudo no catálogo da Global Editora. A reedição de Rede de Dormir - Uma pesquisa etnográfica, que, embora publicado há mais de quarenta anos, continua como principal fonte de referência para pesquisadores e estudiosos. Segundo Câmara Cascudo, os portugueses quando chegaram ao Brasil já encontraram a rede no dia-a-dia dos que aqui viviam, tanto que Pero Vaz de Caminha, em sua carta à coroa portuguesa falando do descobrimento, cita a rede quando descreve os hábitos dos índios: "Uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam." Batizou-a pela semelhança das malhas com a rede de pescar. Certamente, Caminha jamais teria ouvido "rede de dormir" em sua época. No livro (232 páginas, R$ 37,00), o autor disseca o tema, em dez capítulos, procurando, inclusive, textos e citações de outros pesquisadores sobre o assunto. Câmara Cascudo remete o leitor ao século XVI, quando o cronista e pesquisador espanhol Juan Lopez Velasques, em sua Geografia General de las Índias, assinalava o uso da rede em todo o continente americano - desde o México até a Argentina, incluindo países da América Central e as Antilhas. Mais adiante, cita Von Martius e Saint-Hilaire, que no século XVIII falam sobre a quantidade de redes em São Paulo e Minas Gerais, além da qualidade de sua fabricação.

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