Vão ver o que ainda vou inventar, tenho só 80 anos

Teatro Bel Ami, 1.300 lugares, a boca secou, o estômago virou gelo, mas parece que deu certo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

31 Março 2017 | 02h00

A bordo, rumo a Buenos Aires – Quando Francisco ligou e disse que era Ancona Lopez, indaguei qual o parentesco com Dante Ancona Lopez. “Meu tio.” Dante, figura icônica da exibição cinematográfica em São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Amigos da Cinemateca, criou o Cine Coral apanhou o Trianon e transformou-o no Belas Artes, hoje Caixa Belas Artes. Abriu o Scala, o Apolo, o Picolino, o Cine Rio, que se tornou Cine Arte e hoje é Cine Cultura. 

Aquele chamado do Francisco resultou nessa viagem de sete dias que provocou reencontros de minha vida, lembrando meu livro e show Solidão no Fundo da Agulha. Acasos? Assim, quando conheci Cristiane Cassoni da Casa do Circo, voltei à adolescência, quando meu pai me trouxe a São Paulo para assistir ao Circo Orlando Orfei. Fascinado com a coragem do homem e os aplausos, decidi que seria domador de leões. Depois mudei quis andar sobre um fio de aço para, finalmente, sonhar com o trapézio. Ainda hoje, ando no fio. E sem rede, como qualquer brasileiro, que a coisa está dura. Ah, Cristiane é sobrinha-bisneta de Orlando, o temerário, sua bisavó era irmã do domador. Traz o circo no sangue e escreveu um livro fundamental, A Linguagem Corporal Circense.

Final de tarde, circulo e me perco (uma das diversões) pelo navio, atravessando bares, biblioteca, academias, restaurantes, lojas, piscinas, lanchonetes, pizzarias, discotecas, cassinos, onde se movem cerca de 3. 500 pessoas, uma pequena cidade. Caminho e ouço uma canção italiana, Tornerai. Depois o comando, maestro, e ouço Nessuno Mi Può Giudicare, aplausos. De canção em canção, chego ao que chamo de “pracinha”, é o Atrium, onde um cantor desfila tudo de San Remo, sucessos dos anos 60 que nos embalaram. Não acredito, é Dick Danello. A mesma voz, mesmo empenho me levaram a rever os shows do Teatro Record, a boate Lancaster, o cine Paulista, os tempos da Jovem Guarda, música italiana, rua Augusta, playboys, Frevo. Hoje, aos 73 anos, com menos cabelos, Dick é astro permanente do navio e o Atrium lota quando ele canta, distribuindo lenços coloridos com as iniciais DD.

O tempo paralisa no mar. Você atravessa do hoje para ontem, segue para o amanhã. No palco do Teatro Bel Ami (meu autor preferido aos 18 anos, com seus contos sensuais), aulas de judô, afinal estou no cruzeiro do bem-estar. Conheço aquele homem, é Mário Yamasaki. Quem? O árbitro internacional de lutas de MMA, juiz oficial do UFC, aquele que inventou o “coraçãozinho” com as mãos, sofreu críticas e ironias e hoje todos fazem o gesto pelo mundo. 

Junto a ele, um senhor me faz uma reverência, retribuo. Sensei Mario Shigeru Yamasaki, 84, Mestre 8.º Dan, árbitro de lutas em Jogos Olímpicos. Mario Prata, linense da gema, tinha orgulho dele, Shigeru nasceu em Lins, cidade de férias na minha infância. Atrevido, brinco: “Posso desafiá-lo?”. E ele me cumprimenta, me corrige, me envergonho. Diz: “Não posso ser desafiado, não aceito desafios, isto é um jogo”. Lição de vida, comportamento, maneira de ser.

Neste momento, o garoto Alec, neto de Shigeru, me estende a mão. É quando conheço sua mãe, Solange Maria, e Alec me diz: “Você que é mais velho conheceu Dolores Duran?”. Respondi: “Claro, não só conheci, como amava, cantei e dancei as músicas dela e sofri quando morreu tão jovem”. Alec pareceu feliz: “Era minha tia-avó. Dolores era irmã de minha avó Denise. Esta cantava, mas não seguiu carreira, casou-se com um músico e cantor americano, Dave Gordon. Ouviu falar dele?”. 

Vidas correm em paralelo, se entrelaçam em algum ponto. Dolores, vivida na tela por Joana Fomm, em um de seu melhores papéis no cinema. Joana, paixão de juventude, era a madrinha morena de minha coluna de cinema. Ouvi Dave muitas vezes nos programas de Nilton Travesso, um dos criadores da tevê brasileira, ou também no Paddock da Avenida São Luís e tive um disco da Steel Band Trinidad em que músicos tocavam tambores de latão. Dave morreu no final do ano passado, aos 84 anos, ótimo cantor, “belíssimo”, segundo Marília Gabriela.

Às vezes, ficava parado na popa, sentindo o vento e querendo me reconciliar com essas águas que me amedrontam. Quase fiz ginástica com o grupo do José Elias, dança com a Rachel Mesquita, ou tênis, ou ioga, mas na hora da aula eu tinha compromissos inadiáveis no bar. Se não era o bar, eram as caminhadas ou recluso na cabine lendo, escrevendo. Há coisas na vida que a gente pensa que nunca fará, como um cruzeiro. Na vida, devemos tentar tudo. Se não tentarmos, jamais saberemos o que pode acontecer, me disse amiga do ginásio em Araraquara. Sempre tentei. Fracassei, mas quando deu certo, foi para valer. 

Francisco Ancona Lopez apareceu uma noite no final do show Solidão no Fundo da Agulha, que fiz com minha filha Rita (e vou reestrear no Teatro Sérgio Cardoso), perguntando: o que pensam de se apresentarem num navio de cruzeiro? Achamos que ele zoava. Um show intimista, eu contando histórias, Rita cantando, interessaria a plateias acostumadas a Roberto Carlos, Ivete Sangalo? Rimos, adoramos, trememos. E fomos.

Quando chegamos ao porto e demos com o “bitelão” Costa Fascinosa ancorado foi um susto, coisa imensa. Encanto maior tive nos elevadores, todos com fotos gigantes de Fellini, Anita Ekberg, Marcelo Mastroianni, Anouk Aimé, La Dolce Vita, Oito e 1/2. Mergulhei no filme E la Nave Va e me deixei levar, aqui tudo é fantasia, imaginação, fuga ao prosaico cotidiano. Muitas cores, vidros, brilhos, néon, luzes, Broadway, Las Vegas, Hollywood, caleidoscópio, vertigens. Esqueça os preconceitos, junte-se a gente de todas as idades e classe sociais, esqueça política, crise, entregue-se. 

Nosso show? Entramos Rita e eu, no Teatro Bel Ami, 1.300 lugares, a boca secou, o estômago virou gelo, mas não dava mais para sair e nos atirarmos ao mar. Parece que deu certo, tivemos de fazer outra noite, a pedidos. Roberto, Ivete, sertanejos, estamos no páreo. De vez em quando penso: vocês ainda vão ver o que vou inventar, tenho só 80 anos.

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