Vão-se os anéis, fica o legado de uma dama

Pense na combinação de Gata em Teto de Zinco Quente, no maiô branco, peça inteira, de De Repente no Último Verão. Pense nas esmeraldas de Gucci e Ralph Lauren, na ametista de Versace, no rubi de Akris, na safira de Ackerman e Dior. Pense nos diamantes. Eles são forever. O extraordinário, mas também extravagante, espólio de Elizabeth Taylor estará indo a leilão. Antes disso, uma exposição - de roupas, joias, móveis e memorabilia - estará dando a volta ao mundo para lembrar a estrela que morreu em março. Logo, vão se dispersar pelo mundo.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

Pode banalizar dizer que se trata do fim de uma época. Já fora, quando a estrela declinou. Nos obituários, todo mundo escreveu, ou lembrou, que Liz encarnou, melhor que ninguém, um tipo de sonho. Ela ultrapassou a condição de ícone de glamour, mostrando que ser chique não é só uma questão de estilo, ou então que o estilo passa também pela cidadania. O extraordinário trabalho de conscientização de Liz no que se refere à aids contribuiu tanto quanto os maridos, as joias, o Oscar na consolidação do mito.

Como representação do sonho, Liz foi, acima de tudo, a mulher madura, segura de si. Havia aqueles jovens que cultivavam a imagem contestadora de James Dean ou que ornaram seus quartos com os cartazes de Sem Destino. Nada a ver com Liz Taylor. O mundo de desejo que ela despertava era caro. Joias, maridos, comidas, tudo tinha um preço e, não por acaso, ela foi a primeira mulher, nos EUA e talvez no mundo, a ultrapassar a barreira do milhão de dólares, exclusivamente pelo próprio salário.

Sonho, desejo. Mulheres não se exibiam de combinação, exceto as de vida fácil, quando Liz, na pele de Maggie, a gata, se esfregou em Paul Newman, como o marido reticente, na bela adaptação que Richard Brooks fez da peça de Tennessee Williams. Lembrem-se das palavras da Big Mamma Judith Anderson, apontando para a cama. Aqui é que os casais precisam se acertar - essa franqueza brutal não era frequente em Hollywood, nem na puritana sociedade dos EUA, mas Liz a radicalizou, na arte e na vida.

Ela pode ter pago um preço por isso - drogas, bebedeiras e os compêndios de psicanálise poderão até sugerir que suas sucessivas internações para tratar da saúde precária estavam ligadas a processos de psicossomatização. Que importa? O mito a tudo resistiu, até a perda da silhueta que fazia da jovem Liz a mais bela mulher do mundo. Mesmo muito acima do peso, como matrona, conservava o fascínio dos olhos cor de violeta. Seu legado foi "viver". Mas assim, como estava na contracorrente dos jovens contestadores dos anos 1950 e 60, ela também foi contra a mentalidade yuppie dos 80 e 90. No carreirismo que tomou conta do mundo, Liz lutou pelo outro, contra a discriminação e o preconceito. Suas armas foram os diamantes? Para sempre - uma questão de estilo, que agora vai a leilão. Pode-se ver aí, quem sabe, uma metáfora das mudanças ocorridas no mundo.

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