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Vantagem Satanás

Segundo Friedman, uma nova administração tinha de seis a nove meses para conquistar mudanças maiores. Se não agisse decididamente nesse período, não teria outra oportunidade.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 03h00

Naomi Klein é uma jornalista, ensaísta e ativista canadense, autora de livros de sucesso sobre política e cultura, como No Logo. No seu último livro, um tijolo de 560 páginas, Naomi expõe a tese de que o capitalismo predatório se nutre de crises.

O título do livro é A Doutrina do Choque, subtítulo A Ascensão do Capitalismo de Desastres, e Naomi começa cedendo espaço para o guru do liberalismo econômico e do capitalismo sem freios, Milton Friedman, reproduzindo um trecho de um dos seus textos mais influentes. Escreveu Friedman, no que para Naomi é um resumo da doutrina do choque capitalista: “Apenas uma crise – real ou percebida – produz mudanças. Quando ocorre a crise, as reações que ela provoca dependem das ideias disponíveis. Essa, creio eu, é a nossa função básica: desenvolver alternativas para políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável.”

Para Friedman, ainda reproduzido por Naomi, uma vez deflagrada a crise era crucial agir rapidamente e impor mudanças irreversíveis antes que uma sociedade abalada pelo choque retornasse à tirania do “status quo”. Segundo Friedman, uma nova administração tinha de seis a nove meses para conquistar mudanças maiores. Se não agisse decididamente nesse período, não teria outra oportunidade.

É impossível enquadrar a atual crise mundial de contágio numa definição de choque como o da tese da Naomi, mesmo porque o mundo não viu outro desastre comparável. Uma coisa é certa: depois que essa crise passar, o “status quo” não será o mesmo, a “normalidade” não será mais o que era e nenhuma doutrina, capitalista ou contracapitalista, sobreviverá à purgação que se aproxima. Curiosidade: na época da peste negra procurava-se o culpado do horror no céu, onde Deus e o Diabo continuavam seu interminável jogo de tênis sideral, com vantagem ora para um lado, ora para o outro. Recentemente, o líder de uma igreja evangélica com milhares de seguidores em todo o mundo declarou aos fiéis que por trás do coronavírus se vê claramente Satanás a instigá-los. Deus x Diabo está longe de terminar. 

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