Vânia Mignone expôe na galeria Casa Triângulo

Por que motivo os trabalhos de Vânia Mignone nos lembram tanto das gravuras de Oswaldo Goeldi (1895-1961)? A mostra que está na galeria Casa Triângulo sugere algumas respostas para as semelhanças entre a artista de Campinas, que completa 32 anos em outubro, e o gravurista carioca, um dos maiores que o Brasil já teve, morto em 1961 aos 66 anos.Em ambos, vemos aqueles personagens entre o espanto e o desespero, figuras fugidias que parecem não suportar o peso da realidade que as envolve no quadro. Parecem estar sempre em fuga, prestes a serem engolidas pelo mundo ou a abandoná-lo no instante seguinte.Trata-se de uma filiação sutil, esta que liga Vânia a Goeldi, mas a mesma que aproxima a campineira dos pintores paulistas do Grupo Santa Helena (Alfredo Volpi, Ernesto de Fiori) - como comentou a crítica Sônia Salztein ao selecionar as telas de Vânia para Os 90, no Paço Imperial do Rio no fim do ano passado. Uma fachada ao longe, um quintal vazio, o detalhe de um banco de praça, uma sala desabitada, uma chaminé, a porta de uma fábrica: lembranças enevoadas, em tom pastel, habitadas por ninguém, nos levam de volta a uma cidade pré-industrial, doméstica, dos anos 20 e 30.Pode-se arriscar um motivo, relacionado à cidade onde ela mora, Campinas, e de onde raramente sai (ela só vem a São Paulo tratar com seu galerista, Ricardo Trevisan, e volta correndo para seu ateliê). "Fora do centro, é uma região ainda muito bucólica, com cara de cidade do interior... há muitas olarias, fachadas de tijolo aparente...", conta ela.Na mostra, o diálogo de Vânia com essa tradição da pintura paulista pode ser medido em uma salinha da galeria que reúne a série de pequenas telas feita em 1998. Já a conversa com Goeldi (artista que ela diz adorar) aparece nas pinturas sobre madeira (a dura superfície do MDF), criadas durante 1999, e nas delicadas gravuras deste ano. Paradoxalmente, Goeldi se manifesta mais nas pinturas que nas gravuras.Vânia pede que esses trabalhos com tinta acrílica sobre madeira MDF sejam chamados de "desenhos", pelo que carregam de esforço gráfico e de investimento nas linhas e nos contornos.Decidida a se tornar uma "ex-pintora", parece que ela abandonou de vez o trabalho sobre tela e madeira. Sua fase atual investe na mistura - sobre o frágil papel de seda - de impressão (xilogravura) com intervenções diretas que usam colagens, recortes e pintura.Ponto comum entre as três fases (tela, madeira e papel) são os incômodos enquadramentos e cortes, que lembram os da fotografia e do cinema, pois impõem certa distância entre quem olha e o objeto da pintura. Como se entre eles, espectador e tela, houvesse a lente de uma câmera a filtrar nosso perplexo olhar.

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