Vanguardas do documentário

Michael Renov tem sido um dos destaques internacionais nos seminários que, nos últimos anos, têm discutido os rumos do documentário no É Tudo Verdade. Se o evento completa este ano sua maioridade - é a 18.ª edição -, a Conferência Internacional do Documentário é a de número 13. Sob a coordenação da professora Maria Dora Mourão, o tema proposto é Documentário e Vanguarda. Renov participou de uma mesa na terça para debater o documentário e a arte contemporânea.

O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2013 | 02h18

"Têm tudo a ver", ele explica. Cada vez mais a realidade, por meio de vídeos e instalações, participa da arte. Circuitos internos de TV confrontam o público com o próprio ato de ver. Até o fato de o 18.º É Tudo Verdade estar homenageando Dziga Vertov com uma retrospectiva corrobora essa ideia. Certo? "Não necessariamente. Dziga já era acusado, por Eisenstein de ser formalista. A acusação volta e meia ressurge. A preocupação excessiva com a estética é sempre motivo de polêmica no documentário." Renov cita o caso de Joris Ivens, que fez documentários estetizantes e formalistas, mas que deu um basta nisso em meados dos anos 1930.

Assim como a estetização excessiva preocupa, outro problema é a militância que, em momentos de crise, ameaça fazer do documentário uma ferramenta a serviço do jornalismo. Foi o que ocorreu após o 11 de Setembro. Michael Renov considera esses momentos muito importantes, mas diz que é preciso não perder a perspectiva crítica. "O sucesso de reality shows na TV reacendeu o interesse da nossa cultura pelo documentário, mas não se deve confundir as coisas. Nem tudo que parece documentário, na verdade, é", adverte ele.

Renov fala dessas coisas com autoridade porque, além de 32 anos como professor, seu resumé (currículo) ostenta outros títulos importantes - é reitor acadêmico na School of Cinematic Arts da Universidade do Sul da Califórnia e edita a série de livros Visible Evidence, da Minnesota Press, especializada em não ficção. Um autor que fala na primeira pessoa, como Alan Berliner, enfatiza muito a questão do humano. Renov não a minimiza, mas sabe que documentários não são só sobre pessoas, por mais que o fascinem.

Ele gostou muito de Paulo Moura - Alma Brasileira, na abertura do É Tudo Verdade em São Paulo, ama Santiago, de João Moreira Salles ("Há muita política ali dentro"), reverencia Eduardo Coutinho como mestre. Só lamenta que o documentário brasileiro, tão rico, ainda não seja objeto de estudos internacionais acurados para ganhar um volume em sua coleção. / L.C.M.

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