Bárbara Magalhães/Divulgação
Bárbara Magalhães/Divulgação

Vanessa sob nova direção

Turnê da cantora que chega hoje a São Paulo tem a mão de Bia Lessa

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2010 | 00h00

Um certo estranhamento, nas soluções sonoras e na estrutura de composição, ressalta à primeira audição do quarto álbum de estúdio de Vanessa da Mata, Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias, o primeiro por seu selo Jabuticaba. Em outro sentido é perceptível também que a cantora mudou no palco, na turnê de lançamento do CD, que chega hoje a São Paulo, depois de ter passado por Curitiba, Recife, João Pessoa e Salvador. É que pela primeira vez ela atua sob a batuta de um diretor, no caso, diretora, Bia Lessa.

Depois de dois concorridos (e lotados) shows no Teatro Castro Alves, Vanessa e banda fizeram mais um ensaio no Rio (onde só toca em 2011) antes de vir a São Paulo. Já em Salvador ela não estava seguindo todas as marcações determinadas pela diretora. "Na verdade nem desobedeci, porque algumas eram marcações mais minhas. Bia mesma tinha me dito que dentro daquilo tudo eu poderia me soltar como eu quisesse. Acho que era mais um estranhamento meu com a direção. É coisa de primeira viagem, mas percebi que existe uma liberdade dentro de uma direção", observa a cantora.

Vanessa já tinha em mente usar vento, papel picado e projeções, o que a diretora colocou em cena. "Ter uma direção pra mim foi a necessidade de mudar dentro de uma carreira que vinha seguindo em três shows (fora o do DVD) da mesma maneira. A sensação que eu tinha era que me recriava dentro do meu próprio esquema e isso pra mim era muito exaustivo", diz. "Queria muito fazer algo diferente, porque em certos momentos a concentração dentro da música era muito mais difícil do que se eu tivesse alguém me dirigindo. Isso deixou de ser hipótese e se tornou verdade, ajuda a emergir a música, é como se ela se potencializasse com todos os mecanismos que ela oferece." 

 

 

 

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A diferença primordial é que Vanessa projeta melhor a voz no palco do que em determinados momentos do CD, como a faixa de abertura, O Tal Casal, seu novo hit, em que soa um tanto infantilizada. Mudando de tom, ao vivo ela ganha em volume, em vigor na região mais grave e, consequentemente, há um maior envolvimento na interação com o público.

"Fica melhor no show mesmo porque no CD a gente tem pouquíssimo tempo para tornar aquilo uma verdade", reconhece Vanessa, que continua como sempre a compor sem tocar nenhum instrumento, imagina as canções e as registra em gravações. "Conforme a gente vai desenvolvendo aquilo e trazendo para o público, é uma maneira muito aquecedora de fazer com que tudo funcione. Isso me impulsiona, me comove."

Há diversos cantores que não lidam muito bem com a frieza do estúdio, por isso se retraem na hora de gravar e botam tudo pra fora mesmo no palco. Com Vanessa não é diferente. "Estúdio me incomoda muito. As pessoas me dizem que eu rendo muito melhor em show e é verdade. Há muitos contornos de voz que resultam da emoção e em disco realmente é uma maneira muito fria de mostrar a música e a emoção, os microfones são sensíveis, têm uma limitação. Em estúdio acho que sou mais técnica e em show sou mais passional. As pessoas me dão uma realidade daquela música muito mais verdadeira."

Preço da fama. À sua maneira peculiar, Vanessa virou uma estrela popular desde o estouro com Ai, Ai, Ai e Amado, temas de novelas. Na relação com o público é curioso observar como boa parte das pessoas se acha no direito de se aproximar da cantora, enquanto outras se deixam influenciar pelas letras de suas canções.

Depois dos shows Vanessa costuma receber os fãs na medida do possível. "Quando não as recebo as pessoas ficam injuriadas, enlouquecidas. Em Curitiba teve fã no hotel querendo tirar satisfação porque como comprou ingresso ela dizia que tinha direito a dar um beijo em mim", conta. Há casos em que os fãs também aproveitam a situação de posar ao lado dela para tirar fotos e dar beliscões ou passar a mão em partes de seu corpo.

"Tem gente que merece um beijo, um carinho, porque determinada canção influenciou muito a vida dela. É um presente, faço isso por elas", diz. Mas também há casos esquisitos por causa dessas mesmas canções. Boa Sorte/Good Luck, parceria com Ben Harper, é campeã em episódios bizarros.

"Uma mulher numa loja em São Paulo me disse que tinha 27 anos de casamento e o marido terminou com ela por causa dessa letra. Em Portugal veio outra mulher falar comigo num restaurante, chorando com um celular na mão, pedindo pra eu falar com o marido dela, que também tinha terminado com ela com essa música, para ver se com o meu pedido ele voltava para ela."

Sabendo dessas influências, e de como a canção de certa forma faz o papel da literatura para um público que quase não lê, Vanessa procura elaborar suas letras com esmero poético. E espera que com O Tal Casal, algumas pessoas que se separaram com Boa Sorte se reconciliem. A propósito, o novo show tem um bloco temático que segue apropriadamente essa linha de rompimento e reconciliação.

VANESSA DA MATA

Citibank Hall. Avenida Jamaris, 213, Moema, telefone 4003-6464. Hoje e amanhã, às 22 h. R$ 40/R$ 180.

 

 

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