Vanessa da Mata em clima familiar

A cantora e compositora Vanessa da Mata lida com superstições, alimentação e seus discos da mesma forma. O que lhe parece limitador ou viciante deve ser eliminado, desintoxicado e alterado. Com seu novo álbum Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias (lançado pela Sony Music, com patrocínio da Natura), o tratamento não foi diferente. Nele, Vanessa não queria resquícios de seus trabalhos anteriores, como Essa Boneca Tem Manual (2004) e Sim (2007), que não fossem apenas sua cabeleira assumidamente volumosa.

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

É o que estava valendo para um novo convidado especial. Chamar alguém de fora para participar deste trabalho poderia soar como uma repetição de seu dueto com o cantor americano Ben Harper, em Boa Sorte/Good Luck, do disco Sim. "Depois que essa música estourou, rolou uma moda de fazer combinação de voz masculina e feminina. Isso me trouxe muitos outros convites. Mas eu não queria fazer um outro Sim", explica. Por isso, os cuidados com a faixa Quando Amanhecer, parceria dela e Gilberto Gil, que faz uma participação nela. "Não tinha nada de radiofônica, está no final do disco e não são duas vozes."

Com produção de Kassin, Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias busca uma confluência de sonoridades africana e brasileira, dentro de um universo familiar a qualquer pessoa. Qualquer um pode viver o clichê de se rasgar de amor, como em Te Amo (Vanessa da Mata), livremente inspirado em Primavera (sucesso na voz de Tim Maia). Qualquer um pode ter uma avó quituteira de mão cheia, como a de Vanessa, homenageada na faixa-título - e com direito à receita de bolo da Vó Sinha ao lado da letra da música. Qualquer um pode viver uma grande desilusão amorosa como em Vá (Vanessa/Lokua Kanza). Esta música, aliás, já tinha sido enviada para uma outra intérprete, que não teve o nome revelado pela entrevistada. "Ela me disse que traduzia tanto o que estava vivendo naquele momento que não conseguia nem cantar. Só ouvia e chorava. Então, me mandou de volta", diz. "Não são histórias íntimas com a minha vida. São imagens que eu capto, mas não quer dizer que todas elas têm a ver comigo. Elas passam por um filtro meu."

HIP HOP

DRAKE

THANK ME LATER

Cash Money. Preço: R$ 67

No divã, um rapper desconfiado do sucesso fácil

Entre as colaborações vistosas que recheiam Thank Me Later, disco de estreia do rapper Drake, a mais emblemática dos dramas de consciência que dão força ao trabalho é a de Jay-Z. Acompanhado de uma batida esparsa, quase melancólica, o magnata do hip-hop pega o microfone em Light Up para aconselhar o jovem MC com referências a uma cena de O Poderoso Chefão em que Don Corleone orienta seu filho Michael sobre como os seus rivais tentarão enganá-lo, uma sagaz metáfora sobre as armadilhas que acompanham o sucesso repentino e a posição de garoto prodígio que o jovem Drake, de 23 anos, ocupa. Ao contrário do que se tem esperado de um rapper popular, Drake não conta pontos sobre o que fez na sexta-feira à noite. Canta em tom sussurrado e rima com contundência, avaliando com sinceridade as transformações pelas quais passou desde que foi apadrinhado pelo rapper Lil Wayne, produtor do disco. Isso pode ter cheiro de ingenuidade, mas na prática é uma combinação equilibrada e atraente que levou o garoto Drake direto ao topo da Billboard. / ROBERTO NASCIMENTO

ROCK INDIE

LESTICS

AOS ABUTRES

Independente. Preço: R$ 10

Lestics volta mais adulto e roqueiro em novo disco

Honesto é um adjetivo que, colocado depois de qualquer disco, sempre soa um tanto preconceituoso, como se o trabalho entrasse na categoria do passável, cinco e meio. Desde a primeira audição de Aos Abutres, quarto álbum do Lestics, penso em honestidade. No que existe de melhor na palavra. Nos discos sem frescura de Neil Young, na estética do "só tocamos o que fazemos bem ao vivo", que alimenta o rock americano desde os anos 1960. Esse novo álbum é cristalino em suas intenções e surpreendente. Isso porque o Lestics abraçou o rock, novidade para uma banda que sempre pendeu mais para o folk e o country. Gravado em estúdio caseiro, Aos Abutres é um disco direto, sem firulas. Com tanta simplicidade, o que dá o tom são as letras. Olavo Rocha, que às vezes soa como Nasi, do Ira!, conseguiu afinar o pendor do Lestics para o pop sem recorrer à adolescência. Suas letras são bem trabalhadas, poéticas sem forçar a mão e, principalmente, sem gordura. É bom ouvir uma banda pop e adulta ao mesmo tempo. / GUILHERME WERNECK

MPB

ZÉ RENATO E RENATO BRAZ

PAPO DE PASSARIM

Independente. Preço: R$ 25

Zé Renato e Renato Braz se tornam uma pessoa só

Parcerias só valem mesmo se tais parceiros, em suas diferenças, falarem a mesma língua. De outra forma não se ouve música, mas uma colisão de egos. No caso da união de Zé Renato (foto) com Renato Braz, a sintonia é tamanha que por vezes não se sabe qual dos dois está cantando. Zé Renato parece ter extensão mais curta. Renato Braz usa mais vibratos. E daí? Juntos, fazem uma música cheia de cores, feliz mesmo em suas melancolias. Com o fera Sizão Machado no baixo, eles gravaram esse CD em show ao vivo no Teatro Fecap, em São Paulo. Não se preocupe, a qualidade é de estúdio, e o "ao vivo" só se percebe quando as músicas acabam em palmas. Pontos altos estão no samba de Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro, Um Novo Amor Chegou; Adiós Felicidad, de Ela O"Farril; uma junção de Kid Cavaquinho com De Frente Pro Crime, de João Bosco e Aldir Blanc; e Capoeira de Arnaldo, de Paulo Vanzolini. / JULIO MARIA

POP ROCK

EDGARD SCANDURRA

AO VIVO

Microservice

Preço: R$ 23

Veterano guitar hero desafina em disco ao vivo

O guitarrista Edgard Scandurra é um dos mais ativos músicos da geração dos anos 80 do rock brasileiro. Deixa frequentemente sua guitarra enxuta em shows e discos de artistas como Karina Buhr, integrantes da vanguarda do pop rock nacional. As participações lhe garantiram o respeito da nova geração. Mas em trabalhos solo, como demonstra o seu disco Ao Vivo, Scandurra não se dá bem: canta mal as melodias de autoria própria, feitas com letras pouco criativas e arranjadas pobremente. Para a sua sorte, as cantoras Fernanda Takai e Barbara Eugênia vão ao resgate./ROBERTO NASCIMENTO

POP

DAVE MATTHEWS

LIVE IN RIO

Sony

Preço: R$ 30

O interminável sarau carioca de Dave Matthews

A jam band de Dave Matthews conquistou sua ampla base de fãs com uma fórmula batata: músicos competentes transformam canções pop em longas improvisações que lembram saraus à beira do mar. O problema é que, fora o andamento e alguns acordes, nada muda de uma faixa para outra. Matthews esgarça as cordas de seu violão com a mesma batida, o baterista repete a levada e os solistas (violinos, trompetes e saxofones) fazem improvisos abstratos que muito gritam e pouco dizem. Nada mudou para este show carioca gravado em 2008. O disco ainda é duplo. Haja paciência. / ROBERTO NASCIMENTO

TRILHA SONORA

VÁRIOS

TROPA DE ELITE 2

EMI Preço: R$ 30

Trilha sonora"frankstein" e sem vida própria

Grandes filmes merecem grandes trilhas, certo? Infelizmente, não é o que pensa o cineasta brasileiro. Para o Tropa de Elite 2, já que se trata de uma produção que virou marca, bem que seria o caso de se encomendar material inédito. Não iria faltar gente querendo fazer. Mas não. O ex-capitão promovido a secretário de segurança Nascimento fica ao som de velharias como O Calibre, dos Paralamas; Tribunal de Rua, do Rappa; e Candidato Caô Caô, com Marcelo D2. As intervenções instrumentais de Pedro Bromfman só funcionam como fundo de imagem. Sem imagem, são chatas. / JULIO MARIA

Áudio. Ouça trechos da música Quando Amanhecer

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