Vampiros, voltem para casa!

Congresso universitário tenta fazer com que a ficção britânica deste gênero tão na moda volte a se destacar

Lucy Tobin / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Robert Pattinson terá de responder a muitas coisas. Desde que sua figura alta e magra imortalizou o personagem de Edward Cullen, em Crepúsculo de Stephenie Meyer, com uma pronúncia nasalada americana, parece que todos os vampiros do mundo perderam seus passaportes britânicos. Os que povoavam Bon Temps, a cidade fictícia da Louisiana, que é o cenário da série de TV True Blood, falam da maneira arrastada típica do sul dos EUA. Por outro lado, Mystic Falls, Virgínia, o cenário de Diários do Vampiro, nada tem a ver com as mansões de Londres e Whitby do vampiro mais famoso: o Conde Drácula.

Mas atenção, chupadores de sangue: os britânicos querem que vocês voltem para casa. Professores da Universidade de Hertfordshire organizam um congresso em que, entre outras coisas, será oferecida comida lambuzada de ketchup (é mais gostoso do que sangue) sobre caixões de defunto, na tentativa de fazer com que a ficção vampiresca inglesa volte a se destacar. A ideia é da dra. Sam George, professora de literatura inglesa fascinada por vampiros e ansiosa por utilizá-los para tornar a literatura mais excitante.

"Atores britânicos são tradicionalmente escolhidos para interpretar papéis de vampiros na tela, mas ultimamente, eles são todos americanos, de Buffy - A Caça-Vampiros a Crepúsculo. Meu objetivo é fazer com que o foco volte a estar nos textos, que são na maior parte ingleses, e no que eles dizem sobre a nossa sociedade", explica George. "Quis colocá-los no ambiente de um rigoroso congresso acadêmico para provar que se pode estudar literatura popular de maneira séria."

"Quando ensino literatura da Renascença e do século 18, os alunos às vezes têm dificuldades para compreendê-la. E, no entanto, estão sempre me falando de Crepúsculo e do seu personagem. Acredito que a riqueza do tema neste gênero contribui perfeitamente para o estudo da literatura popular num contexto acadêmico."

A ideia certamente agradou ao ambiente acadêmico. George pediu que os interessados enviassem ensaios sobre o tema, e recebeu mais de 100 resumos de acadêmicos de várias disciplinas, como cinema, literatura e estudos culturais; destes, 70 foram escolhidos para falar nos dois dias do congresso. E já estão a caminho vindos de várias partes do mundo, e de instituições britânicas.

Sangue. O programa está lotado e certos tópicos não deveriam ser tratados logo após o almoço. Os títulos das conferências variam de "Sangue, sêmen e pele conspurcados: Os vampiros e o fantasma da miscigenação" a "Quem pediu o hambúrguer com aids?: Tumulto do sangue em True Blood".

Era exatamente isso que Sam George tinha em mente. "Não queria mais um congresso tradicional, queria algo excitante." Cerca de 200 pessoas já confirmaram sua participação, entre acadêmicos e membros de clubes do livro, estudantes e gente da imprensa, todos interessados nos recentes acontecimentos do universo vampiresco.

Procurando aproveitar esse interesse, George lançará em setembro o primeiro mestrado em literatura vampiresca do mundo. "Durante os meses em que fiquei planejando o congresso, respondi a várias indagações de pessoas do mundo todo que estão interessadas em estudar vampiros, zumbis e mortos-vivos em nível superior", conta. "Então tive a ideia de oferecer o mestrado como uma continuação imediata do congresso. Achei que seria crucial alimentar esta explosão de percepção do tema." Os melhores trabalhos do congresso serão coligidos em um livro, que será usado pelos alunos do Master. George prevê que o curso vai além da onda atual da TV sobre vampiros, que hoje são glamourosos e sexy, e têm um lado emocional.

"Antes, os vampiros ficavam presos ao passado, agora, gostam de cultura moderna, das cidades, de música punk, de tecnologia. E há até mesmo mulheres, e vegetarianas." Para a professora, a mudança reflete o fato de que as histórias de vampiros expressam as ansiedades inerentes à cultura dos nossos dias. "Os vampiros nos ensinam a encarar os nossos desejos e o fato de que temos um lado negro. Nos anos 80, filmes e livros de vampiros falavam de doenças e de corrupção - uma maneira de falar de aids. Os vampiros costumam trazer à tona coisas sobre as quais não queremos falar."

O assunto dos vampiros modernos é a erotização dos adolescentes. "No início, nas histórias fantásticas, como Nárnia, de C. S. Lewis, a sexualidade era proibida. Mas as novas tramas de vampiros representam o despertar sexual. Os vampiros modernos são uma metáfora das ansiedades mais profundas dos adolescentes sobre seus corpos e seus primeiros desejos. Eles representam uma maneira sadia de reconhecer esses desejos."

Medo. Sam George afirma que a ficção vampiresca também trata do medo da tecnologia. "A ciência começa a fazer com que pensemos em viver muito mais, o que é fascinante no contexto dos vampiros, porque eles vivem por toda a eternidade", diz. "Os vampiros atuais - como o eterno adolescente Edward de Crepúsculo - refletem o debate científico sobre a perpetuação da juventude e a possibilidade de uma vida eterna." Segundo ela, não surpreende que os vampiros sejam personagens importantes em uma época de mudança social - como a recessão do ano passado - porque "são escapistas e fazem as pessoas pensarem a sociedade em um ambiente muito diferente".

Ela afirma ainda que está interessada nas ideias que estão por trás dos seres do outro mundo, e não em sua realidade física. "Algumas pessoas acham que os vampiros existem, eu não. O congresso as levará a pensar nos vampiros num sentido metafórico, e em como eles nos acalmam, fazendo-nos interpretar nossos medos na literatura."

E se comer salsichas sobre um caixão estimula mais pessoas a pensarem nos meandros e nas implicações da literatura vampiresca, bom para elas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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