Vampiros do Afropop na cidade

Sensação da temporada, chega a São Paulo o aguardadíssimo grupo americano Vampire Weekend

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2011 | 00h00

Quando o Vampire Weekend começar a dedilhar os acordes de seu hit Cape Cod Kwassa Kwassa, os mais antigos da plateia certamente se lembrarão de uma experiência perdida dos anos 80, a banda brasiliense Obina Shock, primeiro grande laboratório do afropop nacional (e esquecida). Não é engano: a matriz é a mesma, mas a semelhança para aí.

O fato é que o Vampire Weekend é, antes de tudo, uma banda do Brooklyn, Nova York, e seu afropop é apenas décor - o resto denuncia aquela aspereza típica da cidade dos Ramones e do Television, os golpes surdos da bateria, as guitarras que seguem a tradição de Tom Verlaine. Claro, uma marimba no meio de tudo isso é que provoca a confusão, e é uma confusão do bem.

Um dos grupos mais badalados do momento, o Vampire Weekend faz sua segunda apresentação no País hoje, em São Paulo (no sábado, tocou no festival Atlântida, no balneário de Xangri-Lá, no Rio Grande do Sul, com abertura da também bacanérrima banda Two Door Cinema). O "Soweto do Upper East Side", como é definido seu som, conseguiu proezas consecutivas nos últimos dois anos - há bem pouco tempo, tocavam apenas em galerias e festivais universitários de Nova York.

Ao lançar seu segundo disco, Contra, em janeiro do ano passado, a banda alcançou direto o n.º 1 da parada da Billboard, vendendo 124 mil cópias do álbum (superando Susan Boyle, Ke$ha e Lady Gaga, segunda, terceira e quartas colocadas). As fontes africanas continuam soando fortes no som do grupo, como as reminiscências dos "pianos de dedo" (famoso no som dos congoleses do Konono Nº 1), mas também incluem algo do reggaeton, do dancehall, do calipso e do ska-punk.

Esses cruzamentos culturais os empurraram para a fama, que chegou em 2008, quando lançaram seu primeiro disco (que leva o nome da banda). O álbum os projetou como um fenômeno crítico (300 mil cópias só nos Estados Unidos e disco de ouro na Inglaterra). Um ano depois, saía Contra (o nome não tem nada a ver com a Nicarágua, cuja revolução foi tratada politicamente em Sandinista, do Clash). O Vampire Weekend não tem essas pretensões políticas.

Mas há sim algo do Clash na sua música, como em Diplomat's Son e I Think Yr a Contra (a letra também traz uma alusão ao grupo inglês, rimando Rock'n'roll com Complete Control, uma música do Clash). Se há algo que o Clash ensinou, foi a olhar fundo nos ritmos da "periferia", especialmente o reggae.

"Nunca escolher um lado/Nunca escolher entre dois", diz uma das letras da banda, como se isso fosse uma espécie de manifesto de sua condição no pop. Esse disco do VW, ao chegar, já encontrou o grupo globalizado e objeto dos mais acalorados debates musicais - "netos" de Paul Simon? Filhotes de Graceland (referencial disco de Paul Simon, de 1986)? Sobrinhos bastardos de Peter Gabriel? O sucesso os levou ao mundo - Tailândia, Indonésia, Cingapura e Japão (e, agora, por conta de uma agenda efervescente, chegam ao Brasil).

Em entrevista ao Estado, em dezembro, Chris Baio, o baixista do grupo, disse que as influências do pop africano que permeiam o som da banda são produtos do meio em que vive. "Vivendo numa cidade como Nova York, onde há gente de todo lugar do mundo, influências culturais tão diversas, não havia outro jeito. Nossa música tinha que ser um grande retrato da vida na cidade", afirmou.

O vocalista do grupo tem nome de poeta laureado: Ezra Koenig. Mas muitas vezes suas letras carecem de um expert para decifrar a lírica. Ele batizou a banda quando a criaram, em 2006 - Vampire Weekend era o nome de um filme amador em Super-8 que Ezra tinha produzido. Os amigos são Rostam Batmanglij (guitarra, teclados, vocais, produção; multi-homem que já militou num grupo de R&B chamado Discovery), Chris Tomson (bateria, percussão) e Chris Baio (baixo, vocais). Antes, Ezra e Chris Tomson tiveram uma banda de rap, L'Homme Run. Ezra também tocou saxofone em um grupo de free jazz, Total War, e em outra banda famosa (e mais cifrada) de afropop, The Dirty Projectors, de Nova York.

Num meio em que o modelo Velvet Underground ainda é o alvo, é legal ver que há bandas que ousam sair do roteiro. O Vampire Weekend escreve o seu.

VAMPIRE WEEKEND

Via Funchal. Rua Funchal, 65, V. Olímpia. 3846-2300. Hoje, às 22h30.

Ingressos: de R$ 160 a R$ 250.

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